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Pedro Rolo Duarte

16
Dez08

Olívia patroa, Olívia empregada

Escreveu-me o meu amigo e compadre João e disse:
 

“Percebo o teu cepticismo, às vezes quase militante. Mas nem Manuel Alegre é sujeito para ser usado por Sócrates como predicado nem os homens de coragem se sentam à espera que passe a crise para depois, em fase de bonança, virem agitar as bandeiras. Manuel Alegre, acredito sinceramente, está magoado com o rumo do PS, como acontece com muitos dos seus eleitores naturais. Não façam dele um traidor: se o PS não tivesse maioria absoluta (e tantas vezes absolutamente acéfala), julgo que, mesmo a contragosto, Alegre não exigiria tanto rigor e tanta fidelidade aos princípios, entretanto substituídos pelos meios para atingir os fins... De resto, com o devido respeito, há muito tempo que não se ouvia discutir ideias - e algumas francamente boas - como aconteceu neste Fórum das Esquerdas. Talvez o problema seja o espírito redutor com que se aborda a questão: para muitos, só interessa saber se há novo partido (força eleitoral) ou não. Ora o drama principal da nossa democracia (a juntar à incompetência, à pequena e média corrupção, à ausência de debate ideológico) talvez more precisamente no envelhecimento dos edifícios partidários, mesmo aqueles que fazem questão de pôr sempre "os jovens" à frente... Pela parte que me toca, tenho alguma esperança em que Alegre não deixe destruir o que conquistou (um milhão de votos contra todas as máquinas partidárias, até a do partido no poder) e possa pelo menos travar a selvagem aceleração liberal da rapaziada que manda. Ingenuidade minha? É possível. Mas também é provável que já não consiga viver sem ela. Abraço.”

 

E eu respondo:

Meu amigo e compadre João, o problema é mais amplo, como eram amplas aquelas liberdades de há uma porrada de anos: eu olho para Alegre e vejo mais cinismo, “complot”, e espertice saloia do que nos seus previsíveis companheiros de estrada. Eu vejo o homem que viveu sempre à sombra do PS, ganhando fama ao sol da crítica ao próprio PS. O tipo que está mas não está, o tipo que aproveita o melhor dos dois mundos: o partido dá-lhe as benesses e o lugar na Assembleia, e depois o tom critico alimenta-lhe o prestigio e a aura de impoluto lutador de passado garboso e medalhado.

Manuel Alegre faz-me lembrar a Olívia patroa e a Olívia empregada: conforme lhe dá jeito, ele é a Olívia do PS ou a Olívia das “novas esquerdas”. Uns dias recebe a massa do sistema, nos outros prefere a massa critica. E aqui, João, massa também é dinheiro, carcanhol, guito, arame, por aí fora. Eu vejo o homem da luta política na ditadura – mas vejo-o longe e bem comido, em Argel e em Paris, vida boa e tranquila. Também vejo o vice-presidente da AR com direito a motorista que, se for caso disso, o leva à caça.

Eu sei que naquele partido dá igual e vale tudo, mas bolas: ele é o homem da indignação, é o homem que diz não. Mas não: o homem diz talvez não, está na hora de pensar se é não, temos de lutar mais daqui a pouco.

Ele, na verdade, não se muda - e, com jeitinho, ainda vai ganhar mais um bocadinho de terreno no PS que está, porque a maioria absoluta obriga a engolir absolutamente os Alegres desta vida. E é isso que é triste.

Quanto ao essencial, tens razão: mais céptico do que nunca. Mas teu amigo, eternamente.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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