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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Escreveu-me o meu amigo e compadre João e disse:
 

“Percebo o teu cepticismo, às vezes quase militante. Mas nem Manuel Alegre é sujeito para ser usado por Sócrates como predicado nem os homens de coragem se sentam à espera que passe a crise para depois, em fase de bonança, virem agitar as bandeiras. Manuel Alegre, acredito sinceramente, está magoado com o rumo do PS, como acontece com muitos dos seus eleitores naturais. Não façam dele um traidor: se o PS não tivesse maioria absoluta (e tantas vezes absolutamente acéfala), julgo que, mesmo a contragosto, Alegre não exigiria tanto rigor e tanta fidelidade aos princípios, entretanto substituídos pelos meios para atingir os fins... De resto, com o devido respeito, há muito tempo que não se ouvia discutir ideias - e algumas francamente boas - como aconteceu neste Fórum das Esquerdas. Talvez o problema seja o espírito redutor com que se aborda a questão: para muitos, só interessa saber se há novo partido (força eleitoral) ou não. Ora o drama principal da nossa democracia (a juntar à incompetência, à pequena e média corrupção, à ausência de debate ideológico) talvez more precisamente no envelhecimento dos edifícios partidários, mesmo aqueles que fazem questão de pôr sempre "os jovens" à frente... Pela parte que me toca, tenho alguma esperança em que Alegre não deixe destruir o que conquistou (um milhão de votos contra todas as máquinas partidárias, até a do partido no poder) e possa pelo menos travar a selvagem aceleração liberal da rapaziada que manda. Ingenuidade minha? É possível. Mas também é provável que já não consiga viver sem ela. Abraço.”

 

E eu respondo:

Meu amigo e compadre João, o problema é mais amplo, como eram amplas aquelas liberdades de há uma porrada de anos: eu olho para Alegre e vejo mais cinismo, “complot”, e espertice saloia do que nos seus previsíveis companheiros de estrada. Eu vejo o homem que viveu sempre à sombra do PS, ganhando fama ao sol da crítica ao próprio PS. O tipo que está mas não está, o tipo que aproveita o melhor dos dois mundos: o partido dá-lhe as benesses e o lugar na Assembleia, e depois o tom critico alimenta-lhe o prestigio e a aura de impoluto lutador de passado garboso e medalhado.

Manuel Alegre faz-me lembrar a Olívia patroa e a Olívia empregada: conforme lhe dá jeito, ele é a Olívia do PS ou a Olívia das “novas esquerdas”. Uns dias recebe a massa do sistema, nos outros prefere a massa critica. E aqui, João, massa também é dinheiro, carcanhol, guito, arame, por aí fora. Eu vejo o homem da luta política na ditadura – mas vejo-o longe e bem comido, em Argel e em Paris, vida boa e tranquila. Também vejo o vice-presidente da AR com direito a motorista que, se for caso disso, o leva à caça.

Eu sei que naquele partido dá igual e vale tudo, mas bolas: ele é o homem da indignação, é o homem que diz não. Mas não: o homem diz talvez não, está na hora de pensar se é não, temos de lutar mais daqui a pouco.

Ele, na verdade, não se muda - e, com jeitinho, ainda vai ganhar mais um bocadinho de terreno no PS que está, porque a maioria absoluta obriga a engolir absolutamente os Alegres desta vida. E é isso que é triste.

Quanto ao essencial, tens razão: mais céptico do que nunca. Mas teu amigo, eternamente.


publicado por PRD às 16:53
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9 comentários:
Nuno Delgado
Muito bem apanhado, caro PRD.
Um abraço natalício,
ND

deixado em 16/12/08 às 17:55
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Hmm... não sei se é azedume ou indignação que aqui detecto, mas para desanuviar também gosto daquela do "vestidinho preto", esse com o qual "eu nunca me comprometo".

deixado em 16/12/08 às 21:33
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manuel Dias
Não podia concordar mais com o Pedro.

Gostaria ainda de acrescentar que penso que o que motiva Manuel Alegre é o seu ego, desmesuradamente maior do que aquilo que ele vale na realidade. O poeta gosta de se ouvir e gosta que falem dele. A ele ninguém o cala. É um romântico que se gosta de imaginar a combater moinhos de vento. Alegre não é um homem de palavra, é sim o homem das palavras. E as palavras são levadas pelo vento.

Gosto do seu blog, identifico-me com os seus pontos de vista e, no meio do nosso jornalismo vejo-o, curiosamente, como um desalinhado.

deixado em 17/12/08 às 15:46
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Magnolia
Na mouche!!!

deixado em 17/12/08 às 22:05
responder a comentário | início da discussão

Fausto Casimiro
Permita que lhe conte um episódio breve do meu tempo de estudante em Coimbra:
Um colega mais velho ouvia a maneira entusiasmada como eu lhe falava do meu apreço pela poesia de Manuel Alegre.
Ele que era pessoas muito empenhada politicamente, comentou:
Pois é meu caro: o Manel é grande como poeta. Mas em política, não passa de um Pateta Alegre.

deixado em 17/12/08 às 19:11
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JGobern
Meu amigo:
Se outros méritos não tivesse, e continuo a acreditar que eles andam por lá, esta iniciativa de Manuel Alegre já teria conseguido algo de raro: pôr-nos aos dois a falar de política, ainda por cima em regime aberto ao público. Que me lembre, estivemos juntos na segunda volta das presidenciais Soares-Freitas , depois de estarmos separados na primeira "jornada". Já lá vão mais de vinte anos. Voltámos a encontrar-nos quando António Guterres - o mais injustiçado dos niossos chefes de governo - pôs fim ao longo consulado do cavaquismo. Já lá vai mais de uma dúzia de anos.
Agora, estamos de volta - por causa de uma campanha Alegre. Na qual discordamos. Desde logo, na relação do sujeito com o PS. Defendes tu que ele marcha ao som das conveniências. Digo eu: Alegre tem um capital inalienável como referência socialista porque, sendo um dos mais antigos militantes do partido, nunca hipotecou a sua consciência aos interesses de grupo. Se quiseres recordar-te, o seu distanciamento de Sócrates não é o primeiro que assume face a um líder do PS: houve Constâncio, houve Sampaio, houve Guterres. Simplesmente, os factos precipitaram-se agora, com a deriva neoliberal de um partido que já foi marxista e hoje, sinal dos tempos, parece sobretudo tachista . As medidas - todas economicistas, quase todas levianas, muitas delas soluções apressadas para problemas que se agravarão dentro de meses e de anos - nos campos do Trabalho e Segurança Social, da Saúde e da Educação não são de molde a que um livre-pensador fique calado. Se outros o fazem dentro do partido, podes estar certo de que trocaram a alma pela máquina de calcular, na esperança de uma autarquia, de um lugar de representação bem remunerado, de um salto - e alguns deles são verdadeiras piruetas - para o domínio privado. Legítimo? Sim. Duvidoso? Mais do que tudo, se pensarmos em casos como os de Jorge Coelho, Pina Moura, Fernando Gomes, Armando Vara e todos os outros boys " que, afinal, descobriram os respectivos jobs ".
Sinceramente, não vejo Alegre a usufruir de tais benesses - a não ser o que lhe é devido. Farás o favor de comparar.
Depois, dá-se o caso de o homem estar no epicentro de algo que pode, mesmo sem ambições de poder eleitoral, ajudar a marcar a diferença. Não tenho - ao contrário do que acontece contigo - a sorte de ter filhos. E talvez esse "pormenor" tenha pesado nas considerações que faço sobre o país que quero deixar como herança aos filhos dos outros. E, confesso, não quero isto: este pântano de impunidades e conluios, este primado do pragmático, quase sempre à custa dos pagantes do costume, esta ausência de ideologia e de soluções alternativas, que acompanhem os novos tempos.
Essa é outra diferença de peso: a proposta de Alegre passa por discutir (tudo) a partir de uma base ideológica e política, de princípios e valores mas também de atitudes claras, a que a História e a História das Ideias venham dar ajudas preciosas. Não se confunde, por exemplo, com o frentismo voluntarista do PRD - que tanto te entusiasmou, se bem recordo - que acabou como todos sabemos.
Parece-me ainda que é injusto acusar Manuel Alegre de ser o homem do "talvez não". Porque essa acusação parte do princípio - redutor e burguês, no pior sentido da expressão - que a política depende apenas dos partidos e estes apenas das consultas eleitorais periódicas. Por mim, gosto de ouvir palavras como "participação" e "cidadania". Se aos vocábulos se juntar a prática, algo terá sido feito para nos tornar menos abúlicos e menos angustiados diante daquilo a que assistimos, tantas vezes sem um simples protesto.
Para já, digo-te de coração aberto, o desafio é motivador. Pelo menos para quem, não tendo feitio nem jeito para se sujeitar á "disciplina partidária", tem consciência de que passou demasiado tempo calado e, assim sendo, em conivência com as vergonhas que todos testemunhamos. Continuar assim talvez seja passar ao lado da vida que nos resta - seja ela qual for. Não vou por aí: a inactividade pode ser mais cansativa e frustrante do que uma eventual desilusão.
Não te maço mais. A próxima conversa há-de ser cara a cara, nem que seja no nosso fórum Mano a Mano.
Grande abraço.

deixado em 18/12/08 às 08:42
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PRD
Claro que sim, compadre: o próximo é ao vivo e a cores. Acho que, no fundo, nos entendemos mesmo na aparente divergência... Abraço, inté!

deixado em 18/12/08 às 22:32
responder a comentário | início da discussão

Saúdo JGobern e sem lha tirar toda, afirmo-me de razão diversa da do Pedro.
O nosso Poeta é tudo o que diz o PRD, mas é também o homem que JGobern descreve. Afinal é apenas humano.
Mas quantos haverá (em todos os partidos) que entraram na vida política mudos e saíram calados, excepção feita quando tinham que justificar o facto de serem "yessmen"?
Alegre fala, é porventura inconsequente, mas diz e a palavra dita agita, mexe mesmo que ele depois fique quieto.
E depois a minha avó não achava grande piada a um trabalho dito de escritório; intelectual. Trabalhar, dizia ela, era carregar com pedras, ceifar, mondar, apanhar azeitona, fazer sementeiras.
Alegre esteve em Hoteis num exílio dourado. Duvido que tenho sujado as mãos, pés e rosto em lodaçais nas fugas a esbirros e gentalha pidesca. De acordo. Mas sendo só rouxinol era uma voz de Portugal amordaçado. E incomodou, fez mexer muitos que davam corpo à luta, quiçá até foi um dos ares que deu ânimo aos que pegarem em armas para derrubar a podridão. Talvez a sua voz agora faça algo semelhante mesmo que ele a bem dizer, não mexa uma palha.

deixado em 18/12/08 às 11:57
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eu
JGobern acho que estás enganado. Nem todos os que são ps ou votam ps ou estão na maioria das vezes de acordo com o ps querem tacho. Eram muitos milhões de tachos. E estar em casa não conhecer ninguém do ps, apenas votar ps e depois esperar um tacho não é fácil. Portanto, reduz lá os tachos que eu não direi muito mal do Alegre. Ora diz-me lá em coisas concretas que fez ele em 34 anos? Que eu me lembre: nada. Falam, falam, mas não os vejo a fazer nada. Pois é, assim nunca me comprometo. Se ele algum dia tivesse trabalhado, presidente de câmara, vereador, ministro, secretário, mas não o homem trabalhar não é com ele. Então teríamos visto a sua incompetência. Poeta, sim. E no futuro não vai mudar. Nunca o veremos a fazer nada. Portanto quem tem medo dele é pouco esclarecido. Quando ele começar a fazer algo no novo partido verão que será de fugir. Ele não é nenhuma excepção nem tem varinha de condão. Não tem futuro. O futuro o dirá.

deixado em 19/12/08 às 01:39
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