Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

20
Dez08

Loucos e sábios

Estava a ler um artigo sobre as vantagens e inconvenientes da idade, daqueles onde se fazem listas de “prós e contras” e se procura dar ânimo a quem precisa de ser consolado pelo peso dos anos (não é o meu caso, apesar dos 44 que se vão notando aqui, nas brancas inconvenientes da memória, e ali, no “índice de massa corporal”...).

Às tantas, a autora do artigo cita uma frase que teria retirado de um livro: “Com os anos, tornamo-nos mais loucos e mais sábios”. E a seguir discorre sobre esta ideia, e tenta prová-la com exemplos que lhe dão jeito para levar a água ao seu moinho. Fiquei a pensar na frase.

Mais loucos? Sem dúvida. Mais sábios? Nem pensar.

Eu sei que quando se escreve “com a idade”, remete-se para patamares acima dos 50 ou mesmo dos 60. Mas eu tenho a sorte – é disso que se trata... – de ter amigos nessas faixas etárias, independentemente do que eu próprio sinto. E verifico que a mais saudável loucura vai chegando paulatinamente com a idade. Os anos passam e ganhamos uma carapaça que nos defende do exterior, por um lado, e nos orienta, por outro: “eu sou assim, eu sou este, quem não quer, vá de volta!” – e esta postura devolve-nos a loucura de usar umas calças fora de moda ou um chapéu verdadeiramente ridículo e estarmo-nos completamente “nas tintas” para o que “os outros” digam. Mas que interessa? Este sou eu! Esta libertação saudável é muitas vezes apelidada de “loucura” – mas loucos são, afinal, os que não conseguem libertar-se. Nunca me esquecerei do tio idoso de uma amiga minha que, certa noite, quis ir connosco à discoteca “Plateau” e nos ouvir dizer que era difícil entrar, e o porteiro isto, e o porteiro aquilo. Ele pegou na miudagem e avançou sobre as Escadinhas da Praia. Quando chegou à discoteca e o porteiro ensaiou o discurso sobre o consumo mínimo e os “clientes habituais”, o tio da minha amiga despiu o casaco, entregou-o ao porteiro e disse “arrume isto no bengaleiro e não se esqueça da minha cara!”. O porteiro, atónito, ficou a segurar a porta e o casaco enquanto nós todos entrávamos a rir...

Temos menos medo das palavras quando somos mais velhos, e dizemos o que pensamos, interpelamos, somos capazes de nos chegarmos à frente e reclamarmos os nossos direitos, sem nos sentirmos excessivos. Parece que a idade nos torna inimputáveis – e por isso desabridos, sinceros, e com aquela certeza única do “não tenho nada a perder”. Isso é loucura? Receio sinceramente que não...

Já sobre a sabedoria... É um facto que o passar do tempo tudo ensina, e nos empurra frequentemente para a clássica frase “se eu soubesse o que sei hoje...”. Mas as surpresas que a vida sempre nos reserva, os momentos inesperados, as contradições e os paradoxos, as revelações e os ensinamentos, tornam-nos mais humildes, com mais dúvidas, menos seguros. Somos mais sábios? Se calhar somos, mas não é isso que sentimos. É o contrário. Um dos velhos notáveis com quem tive o prazer de trabalhar era o mais inseguro dos colaboradores de um projecto editorial que envolvia dezenas de pessoas, a maioria das quais muito nova. O contraste era brutal: os mais novos, na arrogância e soberba que nem a idade nem o talento lhes permitiam usar – e os mais velhos, entre os quais o escritor e pensador a quem me refiro, cultivando uma inesperada e para mim inquietante humildade.

Seremos sábios, mas ganhamos a relevante sabedoria da humildade. Seremos loucos, mas a loucura da idade é a única que tem dons de normalidade. Voltando então ao começo: o que os anos nos tornam? Melhores. Muito melhores.

 

Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman

5 comentários

Comentar post

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D