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Pedro Rolo Duarte

14
Jan09

Adeus, Polaroid

Aí está mais uma vítima da modernidade: a Polaroid morre neste ano de 2009. Com o fecho das fábricas que produziam os filmes instantâneos, depois de já encerrada a produção de máquinas, em breve a Polaroid passará para o domínio da memória e da saudade. Diremos "eu ainda sou do tempo da Polaroid". Abriremos caixas antigas onde dormem, serenas, as fotografias tiradas ao longo dos anos, e vamos mostrá-las como hoje mostramos aqueles cubos de flash descartável que atarraxávamos às máquinas fotográficas, ou os discos de 78 rotações.

Fui um cliente tardio da Polaroid – a minha primeira máquina foi-me oferecida nos tempos da revista “K”. Havia muitas máquinas na redacção, e o Miguel era um militante e tirava milhares de fotografias. Eu tirava poucas, porque me intimidava aquele ruído definitivo da máquina quando vomitava o rectângulo de cartolina. Era uma espécie de arte final – sendo afinal um eterno rascunho. Esta dupla condição baralhava-me – mas ao mesmo tempo fascinava. Foi assim que me aproximei da Polaroid – e a ela me rendi aos poucos.

Mais tarde, no DNA, suplemento que dirigi no DN, criei uma secção que se chamava "Noticias do Meu Diário". Todas as semanas emprestávamos a uma figura pública uma máquina Polaroid e um filme e pedíamos um retrato da semana através de sete Polaroids, uma para cada dia, com as respectivas legendas.

O registo fazia sentido por ser imediato, sem intermediários nem cópias. Cada imagem era única, cada momento irrepetível, e de uma caixa com dez Polaroids não se podia fazer mais do que… dez Polaroids.

Era essa a magia e o encanto daquele aparelho. Aprendi a amá-lo e acima de tudo a respeitar-lhe a condição. A massificação da fotografia digital ditou-lhe o fim – ainda que, estranhamente, lhe tenha elevado o estatuto. Uma Polaroid é uma Polaroid – e ao lado dela, milhões de imagens digitais que tiramos sem dedicação nem alma, repetida e distraidamente, ao ritmo a que respiramos, sem qualquer respeito pelo instante (porque, no fundo, todos os instantes são fotografáveis...), enfim, dizia, ao lado de uma Polaroid, as nossas rascas fotografias digitais são menos que zero.

No entanto, a Polaroid vai embora. A máquina digital fica. É uma lição terrível sobre o ponto em que estamos nisto a que chamámos “desenvolvimento”.

 

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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