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Pedro Rolo Duarte

19
Jan09

A crise e a cura

Quando comecei a trabalhar em jornais a palavra “crise” fazia parte do código genético e do livro de estilo de todos os meios. Não havia a ideia de crise como período transitório, havia a convicção de que imprensa rimava com crise e a condição natural de um jornal era a pobreza, as piores condições de trabalho, e sempre a um passo do abismo.

Foi por conseguinte uma verdadeira revolução o dia em que surgiu “O Independente”. Era o primeiro jornal que eu via nascer onde a palavra crise era substituída sem medo, e até com alguma vaidade, pela palavra oportunidade. “O Independente” nascia para aproveitar uma oportunidade, e ía ganhar dinheiro – por isso pagava bem aos jornalistas, tinha os primeiros computadores portáteis da imprensa portuguesa, e uma redacção com mesas novas e cadeiras forradas a azul, que era a cor do jornal...

Depois de O Independente, voltei a ouvir rimar imprensa com prosperidade em mais alguns momentos, poucos, mas o exemplo do jornal do Paulo e do Miguel serve-me para algo que sempre me inquietou neste negócio: por que raio os empresários, os publishers, os editores, nos momentos de aperto recorrem às saídas mais fáceis – despedimentos, cortes, encolhas na qualidade dos produtos -, em vez de pararem para pensar e perceberem como é que vão reconquistar leitores, anunciantes, investimentos? Ou seja, quando é que a crise deixará de ser vista como doença, mas antes como oportunidade para a cura?

Despedir reduz custos, mas não recupera leitores nem anunciantes. Alinhar com a crise maquilha resultados – mas adia a cura, em vez de tratar de vez da doença.

Õ que “O Independente” me ensinou, nesse tempo, foi apenas isto: mais um jornal no mercado só é um jornal a mais se não for previamente pensado e concebido para satisfazer um publico que o espera, mesmo quando não sabe que o espera. Da mesma forma, numa crise económica, salva-se o jornal que se repensar e refizer – não aquele que se encolher e mostrar medo, ou aquele que alinhar na crise e mergulhar nela de cabeça.

A cabeça é mais para pensar.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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