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Pedro Rolo Duarte

21
Fev09

A novela da vida real

Há perguntas que me perseguem desde a juventude e para as quais nunca obtive resposta: por que motivo as mais bonitas cartas de amor são as que concluem ser ele impossível? Por que são dramáticos e cheios de lágrimas os melhores filmes românticos? Por que há mais morte do que vida nas histórias que ilustram os amores mais arrebatados - na literatura, no teatro, no cinema?

Ou, no fundo, apenas esta pergunta: por que raio o mais nobre e belo dos sentimentos arrasta consigo o sangue e a dor, sempre e eternamente?

Filósofos, pensadores, teóricos e escritores reflectiram sobre esta pergunta desde sempre - e encontraram respostas. Mas, como dizia um amigo de infância, “a desculpa não apaga a dor”: as respostas não satisfazem e a ideia platónica não se dá bem com o meu signo (Touro, para quem não sabe...). O que observo, dia a dia, são paixões e afectos marcados pelo sofrimento e pelo conflito – sem razão maior do que aparente, já que todas as pessoas querem os amores elementares que a Madredeus canta, “danças na grande roda” no terreiro, duas pessoas e um sentimento comum.

Isso: duas pessoas e um sentimento comum. Tão simples, tão fácil, tão natural.

E no entanto...

... Olho de soslaio o televisor da sala e vejo o meu filho embevecido com o “Feitiço do Amor”. É para mim um mistério que um miúdo de 13 anos - que ignora olimpicamente as raparigas, e que só liga às raquetes de ténis-de-mesa, às performances do Benfica, e aos livros de espionagem – se entregue à trama de uma novela. Ele não me esclarece e escuda-se por detrás de argumentos esfarrapados, tipo “habituei-me a ver com os avós...”. Não me convence, e acabo a ver o folhetim para perceber o seu interesse: oiço pessoas a gritar, a chorar, a sofrer e a descobrir traições tremendas. Ou, no limite, a “explicar” e “desfazer” os equívocos que geralmente são, afinal, verdades escondidas. Fico na mesma.

Abro parêntesis.

Lembro-me de ler, nos anos 70, teses sobre as novelas da Globo que explicavam o seu sucesso pelo facto de reproduzirem fielmente as relações emocionais dos espectadores, fosse numa fazenda do século XIX ou numa “quadra” sofisticada de São Paulo. Quanto mais próximas da vida vivida – ou sonhada para quem a pretendia viver... -, maior a probabilidade de sucesso.

Acredito nesta tese. Por isso acredito que a vida das pessoas é a transposição para a realidade da vida das novelas – e o seu contrário. Envolvidos nesta trama, vivemos a novela real, e vivemos pela novela a realidade que nos falta.

Fecho parêntesis.

Chego ao beco sem saída: procuramos o amor elementar, inicial, primeiro e primordial. Desejamo-lo, sonhamo-lo – mas depois vamos rever-nos na gritaria e na lavagem de roupa suja de uma novela, vivemos vidas duplas sem qualquer espécie de sentido, paz ou felicidade. E como se não bastasse, vemos os nossos filhos crescer já enredados nestes quadros do “Feitiço do Amor” - que eles ainda não vivem, nós desejaríamos que não vivessem, e que nem conseguimos perceber como os atraem nos dias em que, nas suas existências, o centro da vida está numa bola de ping-pong ou de ténis.

Acabo por reconhecer, contrariado, que o meu filho também já deve viver a sua novela – e para variar eu vou ser o ultimo a saber, e então vou repetir o estereótipo: faço-lhe uma cena, há gritos, lágrimas e equívocos, enfim...

O mais nobre e belo dos sentimentos arrasta consigo o sangue, o sofrimento e a dor. Nunca irei perceber porquê. Mas parece óbvio cada um de nós tem a sua novela à espera. É só vivê-la.

 

Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman

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