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Pedro Rolo Duarte

18
Mar17

Do poder ao pântano

(Quinta-feira, na plataforma Sapo24)

 

A entrevista que o Dr. Pedro Santana Lopes deu à TSF e ao “Diário de Notícias”, no fim de semana passado, tem momentos hilariantes – ou de chorar, conforme queiramos olhar a política “à portuguesa” -, mas é tudo menos insignificante (junta com a de Assunção Cristas ao “Público”), para perceber o que se passa à direita do PS.

O sucesso (pelo menos, até agora) da “Geringonça”, a forma “hábil” como actua o primeiro-ministro – a palavra “hábil” é bastas vezes usada por Santana para caracterizar António Costa - e a chegada de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência, com o formato que adquiriu e a surpreendente mão dada ao Governo, deixaram o PSD confundido, perdido, enredado num conjunto de nós que ninguém ousa desatar. A sensação de falta de rumo nota-se em Pedro Passos Coelho – a começar na pose, algures entre primeiro-ministro que se recusa a deixar o cargo, e líder da oposição que consegue ser mais trauliteiro do que se esperava de um ex-primeiro-ministro... -, nos tiros nos pés dos seus acólitos, e resulta em entrevistas como esta, onde Santana Lopes parece um analista independente e não um militante do PSD, mais preocupado com o poder do que com o país, e mais incomodado com Marcelo do que com António Costa...

A questão que ele coloca é mesmo a do poder: “Como é que o PSD e o CDS regressam ao poder? Parece que há aqui falta de diálogo ao meio, do sistema partidário. É a sensação que eu tenho às vezes, porque PSD e CDS fazerem por voltar ao poder sem algo de novo - não estou a falar de lideranças -, é complexo”.

Repare-se que Santana Lopes não fala em projectos nem ideias para Portugal, ou reformas por fazer – fala apenas de regresso ao poder, deixando-nos a sensação de que esse é o único desígnio que o PSD consegue afirmar. Pelos vistos, sem grande sucesso.

Mas o mergulho no charco não fica por esta “confissão” da falta de GPS quando o partido não está no governo. Vai mais longe quando praticamente ignora o estado da nação e prefere observar o social-democrata Marcelo na Presidência. Diz Santana, com alguma arrogância, para não dizer soberba, sobre um homem que fica, politica, cultural e eticamente, a anos-luz do presidente da Misericórdia: “É manifesto que Marcelo, às vezes, tem exagerado e, muitas vezes, tem feito de primeiro-ministro nas intervenções que faz, o que dá imenso jeito ao dr. António Costa”. E ao ser-lhe pedida uma nota para o Professor, a lata persiste: ”14,5. Entre o bom pequeno e o bom grande, mas acho que é mais bom grande. É 15, na prática. Eu só não digo que é muito bom por esse excesso e pelo equilíbrio com a oposição. Mas acho que tem feito um bom mandato, um bom primeiro ano. Mas também levo em linha de conta o facto de ser um primeiro ano”.

Estivesse Pedro Santana Lopes na liderança do PSD e eu diria que tinha perdido a cabeça. Estando afastado, mas “andando por aí”, como gosta de dizer, pensa o PSD com tal desdém e menosprezo que se dá ao luxo de sugerir que falta “algo de novo” (quem sabe outro Partido...), e que o Presidente da República, ainda que social-democrata, não cumpre a missão como seria expectável. Ou seja: perdidas as referências e o poder, está esvaziado o PSD, e com ele as ambições de quem por lá anda. Outro tiro no pé, e mais uma acha para a fogueira onde arde lentamente o fantasma em que o partido se tornou.

A resposta a tudo isto podia estar em Assunção Cristas. Mas a longa entrevista que deu ao “Público”, essencialmente preenchida com um “não tenho nada com isso, eu até ía a caminho da missa”, sobre o passado, o PSD e Marcelo, não ajudou à festa. Foi uma tentativa de fuga para a frente, que acabou por ter o amargo sabor de quem assobia para o lado.

É exemplar (no pior sentido) o estado em que está a oposição, e de como tal facto é meio-caminho andado para surgir quem, à direita, saiba aprender os efeitos do vazio. Não augura nada de bom. E isto, sim, é o pântano em todo o seu esplendor.

15
Mar17

Assim, de repente, ouvindo Sócrates na TV...

Sempre que oiço José Sócrates queixar-se da lentidão da justiça e das demais injustiças a que tem sido submetido, pergunto-me: este homem não foi primeiro-ministro de Portugal durante seis anos? O que fez para que a justiça deixasse de ser o que, pelos vistos, continua a ser? Ou está apenas a reconhecer que, desde 1987 (ano em que foi eleito deputado pela primeira vez), esteve mais preocupado consigo do que com aquilo para que foi sucessivamente eleito?

O homem é tão cheio de si que nem se apercebe de que dispara tiros nos pés sempre que critica o que ele próprio devia ter mudado e não mudou.

Esteve lá a fazer o quê, além do que é agora suspeito de ter andado a fazer?

10
Mar17

Números quadrados

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Sempre que se fala da pós-verdade, que mais não é do que a vontade de tornar factual o que é mentira, e se exibem as “notícias” inventadas por Donald Trump e a sua claque, tenho tendência a recuar no tempo e recordar que, no Liceu, umas das raras lições que me ficou da matemática (a que era péssimo aluno), foi a explicação de uma professora sobre estatística. Era mais ou menos isto que a senhora contava: tenho em casa um belo frango assado; cheia de fome, enquanto o meu marido estaciona o carro e sobe ao nosso apartamento, decido comer o frango inteiro. Sobram batatas fritas e pão... Porém, para efeitos estatísticos, naquela casa cada frango é dividido por dois; ou seja, cada um dos elementos do casal terá comido meio frango. Mesmo que o meu marido tenha, em bom rigor, ficado esfomeado!

Esta ideia primária, muito aplicada na politica conforme o jeito que vai dando, constitui a antecâmara da tal pós-verdade. É usada para mascarar números sobre desemprego ou o investimento, como serve para as interpretações que demonstram o estado lamentável da nação.

O mesmo algarismo pode servir uma tão variada gama de interesses que é praticamente impossível encontrar um denominador comum numa operação aritmética. Onde está a verdade? Algures, a meio caminho entre todas as mentiras...

Talvez por isso, ando há algumas semanas a tentar digerir, sem sucesso, uma sondagem (da Intercampus, divulgada pelo jornal Público), que tentou “perceber” os jovens portugueses através de uma série de perguntas que vão do mais sério ao mais fútil. E se acredito que a maioria dos sub-34 escolha Marcelo Rebelo de Sousa como o mais sexy de entre os homens públicos – a longa distancia da mulher mais sexy, Assunção Cristas, ou de Joana Amaral Dias, a segunda classificada... -, parece-me pouco crível ou sequer aceitável que haja 48,8% de jovens a declararem interessar-se por politica, a que se acrescentam 15,7% de “muito interessados” na matéria...

Sejamos sérios: se fossem interessados na matéria, não teriam deixado à porta de uma Faculdade Jaime Nogueira Pinto, e uma conferência seguramente interessante, mesmo para quem com ele estivesse em desacordo.

A abstenção em actos eleitorais, e o caldo morno em que se movem estes mesmos jovens, diz ainda mais do desinteresse e indiferença que nutrem pelo mundo que os rodeia – facto confirmado por outra questão da sondagem, que revela uma maioria de 57% que confia nada ou muito pouco no Governo.

Não confiam em quem governa mas interessam-se por politica? Por um lado gostam, por outro lado ignoram sistematicamente as regras mais básicas? Há qualquer coisa que não bate certo.

E o que não bate é a tal ideia de verdade que dá jeito, conveniente, que estando na moda é um perigo letal. Faz lembrar a bomba de neutrões, num tempo de guerra fria que escaldava: mata por dentro deixando tudo intacto por fora.

Os números redondos, os números que justificam sucessos e fracassos, não são nem verdades absolutas nem mentiras descaradas. São quase sempre quadrados. São dados que, desde há muito, os especialistas desconstroem e os media, na sua função “tradutora”, explicam e esclarecem. Nesse quadro, é fácil perceber porque andamos tão perdidos, sem encontrar correspondência entre o que nos dizem que vivemos e o que efectivamente sentimos, entre o real cinzento dos dias e o sol que nos vendem, ou a tempestade que nos anunciam.

Nem os números são redondos nem os factos são óbvios – e não precisávamos que nos “dessem” um qualquer Trump para saber que, como na história do frango comido por um só, na sala onde estão dois, também 10% de desempregados, ou 2% de crescimento económico, não traduzem uma vida melhor nem garantem um desanuviado futuro. São apenas dados a ter em conta numa aritmética sempre duvidosa e pouco ou nada rigorosa.

Tal como a sondagem sobre os jovens, se a olharmos sob o prisma de quem impediu Nogueira Pinto de falar: eles podem até parecer, mas não são. Nem interessados nem interessantes...

06
Mar17

As mãos que ardem no fogo

(quinta-feira passada, na plataforma Sapo24)

 Há uma expressão popular, muito usada para demonstrar a nossa confiança nos outros, que receio possa entrar em desuso para todo o sempre, seja em relação àqueles em quem acreditamos - mesmo sem conhecer, apenas por intuição e currículo -, seja em relação aos nossos familiares e amigos. É a clássica “ponho as mãos no fogo por...”.

Todos nós já pusemos as mãos no fogo por alguém – e nem todos nos queimámos, acredito. Mas os últimos tempos têm demonstrado que é pouco seguro brincar com o fogo, porque quase todos os dias aparece alguém por quem poríamos a arder as mãos – e o problema é que, subitamente, se o fizéssemos, ardiam mesmo.

Não brinco. O assunto é sério. Estou a falar de quando a excepção ameaça tornar-se regra, e de quando o que parecia ser uma ovelha fora do rebanho é afinal parte integrante do rebanho.

Deliberadamente, não vou referir um único nome. Não quero manchar suspeições, nem alimentar suspeitas por provar nas instancias competentes. Quero apenas notar que não há praticamente dia em que não nasça um novo suspeito, um novo arguido, um novo condenado - que vem juntar-se a uma lista cada vez mais vasta de figuras de todas as áreas politicas e profissionais -, quase sempre envolvido em praticas ilícitas que invariavelmente desembocam em corrupção, fraude, e acima de tudo no aproveitamento de cargos de poder e influência em beneficio próprio, com ou sem conluio e cumplicidade.

Durante anos, habituámo-nos à ideia de uma classe de gestores, empresários, empreendedores, cuja ousadia, inovação, competência e conhecimento deram ao nosso tecido empresarial uma dinâmica e uma imagem que teriam de uma vez por todas enterrado o passado de pequenez e contas de mercearia que marcara a ditadura (e mesmo algum tempo pós 25 de Abril...). Não foi há muito tempo que assistimos à renovação da banca nacional, à criação de marcas inovadoras em todas as frentes (lembram-se da “Nova Rede”? Do “BCI”? Da “TMN”?), às iniciativas de empresários que queriam “aconselhar” os Governos sobre os desígnios de Portugal, e ao lançamento permanente de novos nomes que orgulhavam a gestão, faziam as capas das revistas, e davam as entrevistas de fundo dos jornais. Sobre todos eles recairia sempre a pequena inveja em relação aos fabulosos rendimentos – mas, ao mesmo tempo, reconhecia-se que a competência e os lucros gerados justificavam os ganhos e as mordomias e o que mais houvesse.

Pior: acreditámos que tanta competência e saber, tanta boca cheia de “responsabilidade social”, e obviamente tão extraordinários vencimentos, eram mais do que suficientes para podermos “por as mãos no fogo” por eles. Não precisavam de mais...

Os anos passaram. Como numa peça de teatro que chega ao fim, o palco esvazia-se e já só mostra o vazio. Os actores despem os seus fatos e mostram-se como são. Somos repentinamente surpreendidos com a mais crua verdade: afinal, nada do que os podia distinguir, os distingue. Nada do que aparentou a diferença foi diferente. E o fogo fátuo que exibiram, se não nos queimou, também nunca chegou a arder...

Aqui chegados, sobra em desilusão e desencanto o que faltou em tudo o resto. No crédito que lhes demos sem merecerem, no exemplo de seriedade que todos os dias se põem em causa, e acima de tudo numa ideia de Portugal que, uma vez mais, era uma ilusão. Parecida com aquela que enganou os nossos pais, os nossos avós. Numa sina a que não chamo fado por respeito à canção – mas chamo tragédia, porque não é mais do que teatro. De vão de escada.

23
Fev17

Portugal moderno

(Hoje, quinta, na plataforma/newsletter Sapo24)

Nos últimos dias, os media deram-nos conta de factos que, de uma vez por todas, comprovam que Portugal chegou ao primeiro mundo. Uma ex-agente da CIA, cá das nossas, foi detida, para cumprir pena já decretada, por ter participado no rapto de um líder religioso egípcio, em 2003, em Itália. É certo que a senhora tem agora 61 anos e se chama Sabrina, mas isso interessa pouco – é um momento alto da nossa capacidade de espiar e raptar. Ao mesmo tempo, perigosos fugitivos chilenos conseguem fugir da prisão de “alta segurança” de Caxias, sem rasto nem lastro. Na semana passada, um assalto em pleno dia no Centro Comercial das Amoreiras veio mostrar que, em matéria de roubo à mão armada, estamos à altura dos americanos (ou, pelo menos, das series televisivas americanas...). E já tinham sido apanhados em território nacional traficantes de primeira do mundo da droga. Uma vista de olhos diária ao Correio da Manhã prova o que falta para chegar onde quero: não é apenas no sistema Multibanco, Via Verde, no turismo de Lisboa e Porto, ou na queda dos números do desemprego, que Portugal marca pontos e está na cabeça do pelotão do desenvolvimento – também no reverso da medalha começamos a dar cartas. Temos entre nós malandros de estatura internacional, crimes de peso, e um Carnaval (a imitar cada vez melhor o brasileiro...) a animar as ruas nos próximos dias.

Perante este conjunto de incontornáveis factos, recordo ainda que era Donald Trump uma criança e já nós convivíamos com Alberto João Jardim, que havia família Salgado quando a realeza espanhola se revelou, e que a nossa banca não deve nada às estrangeiras em matéria de vulnerabilidade por evidente má gestão.

Ou seja: somos tão bons como os outros, da mesma forma que somos tão maus ou piores do que eles. Com uma ligeira desvantagem para nós: a escassa dimensão, a eterna pequenez, e uma tendência inata para o “logo se vê”.

Talvez por isso, no momento em que o Governo vem vangloriar-se dos progressos conseguidos, dos números e das estatísticas, do progresso e da “geringonça”, o espectador comum, como eu, duvida e pergunta-se: será assim, ou vamos esperar sentados a próxima desagradável surpresa? Vivemos, como escreveu João Miguel Tavares, na “bolha da inconsciência”, ou chegámos por fim a um patamar de equilíbrio em que, como escrevi, também o crime chega a níveis internacionais?

Até há uns anos, tínhamos a imprensa – que nos ajudava a perceber a relevância e hierarquia de tudo isto. Hoje temos cada vez menos imprensa – ou, como dizia há dias o director do Washington Post, mais evidências de que a imprensa pode acabar, e menos de que continue... -, e cada vez mais títulos soltos nas plataformas que dominam a informação. E esta dispersão baralha-nos ao ponto de podermos achar que uma ex-expiã da CIA, por fim detida, nos coloca na linha da frente do desenvolvimento, apenas pelo facto de ser portuguesa...

Algo me diz que o mundo, mais do que perigoso, está baralhado e confuso. Já ninguém percebe o que se passa, parece-me. Mas uma coisa é certa: não é pelas redes sociais nem pelos googles desta vida que vamos saber mais e melhor.

Saudades de uma coluna de Victor Cunha Rego, ou de uma primeira página “desenhada” por Mário Bettencourt-Resendes...

17
Fev17

O “abismo” numa fotografia

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Há polémica sobre a fotografia do ano do World Press Photo. A foto, como já é sabido, é um instante do momento dramático em que um atirador isolado, Mevlut Mert Altintas, dispara sobre o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, na inauguração de uma exposição na Galeria de Arte Contemporânea de Ancara. O autor da imagem é o turco Burhan Ozbilici, da Associated Press, que terá decidido passar pela Galeria sem serviço marcado. Todos vimos o vídeo que captou o momento, mas a imagem fixa, parada, do atirador a erguer a pistola, com o corpo do embaixador inerte no chão, tem qualquer coisa de ainda mais negro – nem que seja pelo instantâneo que se revela pela falta de enquadramento, a surpresa que toda a composição mostra, e a loucura que o quadro exibe cruamente. Uma imagem definidora de um tempo e da forma como o podemos ver.

Há quem ache que a imagem mistura sensacionalismo com publicidade aos efeitos do terrorismo, e que ter ganho, num ano em que estão também a concurso fabulosas imagens do drama dos refugiados, e da emigração na Europa, é injusto.

Os argumentos podem ser razoáveis, mas são pobres. Aquela fotografia revela o estado em que estamos nos dias de hoje, a imprevisibilidade dos dias, o parco valor da vida, o confronto entre culturas e forma de vida – ou de morte.

As palavras de João Silva, o fotógrafo luso-descendente que foi premiado, e agora é jurado, do World Press Photo, dizem tudo sobre a escolha do júri: “Vejo o mundo a caminhar em direcção a um abismo. Este é um homem que claramente chegou a um ponto de ruptura”. É essa ruptura com que nos confronta Burhan Ozbilic (cujo sangue frio e a coragem não é demais sublinhar), como se fosse uma prova, uma testemunha, uma evidência.

De resto, a imagem é também simbólica para os momentos que o jornalismo vive, e para responder de forma meridiana, mas exemplar, às “não-verdades” que por aí andam: os que a acusam de promover o terrorismo pretendem que não se veja o que efectivamente acontece? Num instante me lembro de, até ao 25 de Abril de 1974, serem cortadas pela censura todas as notícias que revelassem suicídios, para não contagiar a população nem mostrar realidades incomodativas.

Não me parece, de todo, um bom caminho para voltar a ter a verdade ao serviço do jornalismo e os factos verificados e confirmados por quem os testemunha. O que o fotógrafo da AP fez foi justamente servir o jornalismo, mostrando um facto tão incómodo e chocante quanto verdadeiro, e raras vezes visto no momento em que ocorre; foi denunciar o tal “abismo”, a que chamo loucura, que varre o planeta e nos deixa diariamente aturdidos e confusos sobre os caminhos que levamos; foi registar, correndo risco de vida, o instante preciso em que o atirador se revela barbaramente satisfeito com o crime que acaba de cometer.

É bom que tenhamos a noção de que vivemos lado a lado com pessoas como esta, e que amanhã esta imagem nos pode bater à porta sob a forma de um facto inesperado, daqueles que achamos que “só acontecem aos outros”. Nessa medida, esta fotografia é a um tempo um grito e um sinal. Sem encenações. Sem filtros. Sem recurso a dramatismos exteriores ao que os factos já encerram.

Como se estivéssemos a voltar a um qualquer começo, é o jornalismo na sua essência. Puro e duro. Surpreendente e chocante. Mas sempre verdadeiro. No momento que vivemos, em que a verdade se inventa e os factos se esfumam, isso vale mais. Para não dizer que vale tudo.

08
Fev17

Mais novos do que nunca – e do que sempre

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Está a fazer agora dois anos que eu e a produtora Joana Jorge começámos uma aventura que semanalmente nos surpreende, nos envolve, e muitas vezes nos maravilha. O projecto “Mais Novos do Que Nunca”, na Antena 1, nasceu para revelar na rádio pública o que faziam os recém-licenciados com os seus anos sabáticos, “gap years”, pausas entre o final de um curso e a entrada no mercado de trabalho.

Porém, rapidamente nos apercebemos que esse universo era, afinal, bem mais rico e vasto, não tinha limite de idade (a não ser na cabeça...), e constituía um sinal dos tempos: gente que muda de vida a meio da vida, gente que muda de carreira porque um dia acorda e percebe que não é feliz, gente que investe tudo em voluntariado porque descobre que é isso que faz sentido nesta passagem pela Terra, gente que aposta na inovação.

Dois anos passados, o “Mais Novos do que Nunca” é a janela aberta e o ar puro de que precisava para resistir aos tempos duros que todos vivemos, e um espaço de libertação e inovação para quem o ouve com a mente aberta. É uma lição semanal: de humildade, de coragem, às vezes apenas de capacidade de dar o pequeno passo, que tantas vezes pensamos dar e nunca damos, e que faz a diferença entre acordar para a rotina ou acordar para a vida.

Estou grato – e a Joana também, seguramente – pela oportunidade que a rádio nos deu. Dá trabalho, é trabalho – mas ao mesmo tempo é inspiração e respiração, é prazer e paixão, e é aprendizagem permanente. O meu pai já dizia que gostar do que fazemos, e ainda nos pagarem por isso, era um privilégio que não devíamos menosprezar. Se, para lá disso, ainda nos ensinam e inspiram para uma vida melhor, que mais podemos querer?

Nada. Apenas continuar. E continua.

03
Fev17

A vida de cada um

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Estou a ver na TV, num canal de notícias, uma curta troca de argumentos sobre a eutanásia. Estremeço. Antecipo o “amplo e profundo” debate que o Presidente Marcelo desejou há dois dias: vai dar asneira. Um dos intervenientes era mesmo o bastonário da ordem dos médicos, José Manuel Silva - e a forma como ridicularizou as opções que um doente terminal pode ter, para concluir que o mais “barato” era o suicídio, deu para perceber como podem extremar-se questões tão delicadas e sensíveis como esta, e como se pode cair lamentavelmente na demagogia e no disparate. Ora, se com a vida não se brinca, então com a morte…
Confesso: sou impotente para vir a terreiro argumentar sobre a eutanásia. Parece-me uma questão de foro tão intimo e pessoal, tão individual e tão pouco política ou sequer ética, que não consigo ver quem possa “querer” ter razão e taxativamente estar “contra” ou “a favor”. Por mais que haja quem pense que a vida não nos pertence - a quem pertencerá? Ao Estado? A Donald Trump? Aos constitucionalistas que decidiram a nossa vida? -, não consigo escapar à evidência: se cada um de nós faz da sua vida o que entende e quer, parece meridiano que a vida de cada um de nós é mesmo de cada um de nós, desculpadas as repetições e redundâncias. E assim sendo, cabe a cada indivíduo decidir o que fazer com a vida quando ela está em causa, quando não tem saída, quando já só resta sofrimento e dor. Quem sou eu para confrontar um ser igual a mim que decide, pela sua cabeça, conscientemente, antecipar o inevitável em nome de uma qualquer paz interior? Quem sou eu para dizer a 90% dos necessitados de cuidados paliativos, que os não recebem por falta de capacidade de resposta da rede, que não devem ou podem recorrer à eutanásia?
Não me passaria pela cabeça debater a eutanásia justamente por entender que ela já existe, interiormente, na opção de fim de vida de todos os seres humanos, mesmo quando não lhe têm legalmente acesso. Menos ainda referendar ou levar ao Parlamento. No limite, legislar sobre as condições essenciais - de saúde, ou falta dela - que garantissem que a decisão não serviria para abusos, desvios, fatalidades, facilidades. O mínimo indispensável.
Dito isto, parece-me que o debate vai dar disparate. Vamos ver repetir-se a dicotomia esquerda/direita, católicos/ateus, novos/velhos, numa estúpida cisão sem sentido, ditada por preconceitos e falsas premissas, e que não corresponde, seguramente, ao sentir da maioria. Enquanto nas ruas cada um pensará por si, nas televisões e nos jornais vamos ver “frentes unidas” com cargas ideológicas e religiosas, numa repetição de outros debates passados, alguns deles de infeliz memória. É mais tempo perdido, mais energia gasta desnecessariamente - enquanto se adiam, se esquecem e apagam tantos debates por fazer, tanto país por construir.

15
Jan17

O medo

Vou acompanhando, online, o essencial do Congresso dos Jornalistas, e mantenho o que me levou a nem sequer tentar participar no evento - e teria de tentar muito, porque a Comissão Organizadora deixou de fora todos os que, nos últimos anos, deixaram de ter Carteira Profissional…
Na verdade, ainda que me sinta jornalista há mais de 30 anos, não me identifico nem me revejo nos debates que vou acompanhando, quase sempre enviesados pelas situações particulares de quem fala. Gostava que os jornalistas “de sucesso” do momento não fossem tão infantilmente optimistas, só porque têm um emprego ou porque dirigem jornais que ainda vendem qualquer coisa - como gostava de ver menos queixume naqueles que se sentem precários, mal pagos e sem horizonte.
Nem uns nem outros estão certos no diagnóstico - e vamos vê-los em posições inversas mais depressa do que eles próprios pensam. Por mim falo, que não atribuo ao mercado nem aos grupos de comunicação o afastamento dos últimos anos - mas sim, e infelizmente, àqueles que, por julgar bons, achei que não tinham medo. E afinal tinham, e ficaram de telefonar “na semana que vem”…
Aliás, foi por causa desse afastamento que me vi forçado a entregar a minha Carteira Profissional, para poder trabalhar em áreas teoricamente vedadas aos jornalistas - e, ironicamente, foi esse estado de coisas no jornalismo que me impediu de participar activamente neste Congresso, que não teve em conta realidades como estas e deixou de fora todos os que não possuíam “titulo profissional válido”. Ou seja, quem foi forçado a fazê-lo por manifesta necessidade de sobrevivência e falta de alternativas no mercado, ainda recebeu por cima o carimbo de “marginal” ou “dispensável”…
O jornalismo vive no medo não por causa do novo mundo - mas por causa de si próprio e das suas inseguranças. Enquanto assim for, todos os debates são viciados à nascença e os congressos servirão apenas para encontrar os eternos bodes expiatórios que servem uma classe mais preocupada com a desculpabilização do que com a afirmação.
Não consigo alinhar, lamento.

11
Jan17

O sabor de um queque

Há muito tempo que percebi que quase nada se repete - e quando digo “quase nada”, refiro-me ao mais simples, porém intenso, da vida: o cheiro da terra molhada do Penedo, o mar da Praia Grande sob o olhar do meu pai, a cor do céu quando anoitece em Lisboa. Conseguimos muito raramente uma aproximação, mas não voltamos onde estivemos. Tudo mudou entretanto, mesmo quando nos parece ter ficado igual.
Penso muito neste não-regresso - que é uma não-verdade, mas ao vivo… - quando tenho a tentação de reencontrar sabores de infância e juventude. Como sucedeu há dias.
Um dos sabores que apaguei da memória, por nunca mais o ter encontrado, foi o dos queques matinais da Gôndola, a pastelaria junto à casa dos meus pais, que abria de madrugada para servir trabalhadores de passagem. Todos os dias eu comprava um queque na Gôndola, morno, estaladiço, com um sabor único, algures entre a madalena e o bolo caseiro, e comia-o a caminho da Escola Eugénio dos Santos, imediatamente antes de ser assaltado por dois miúdos, sempre os mesmos, com uma ameaçadora corda, que me roubavam o troco do queque e o mais que pudesse ter e lhes interessasse. Nada, quase sempre.
Este cenário de infância reencontrou-se comigo nestes dias em que, saindo cedo de casa, procuro o melhor sitio para um segundo café. E nessa busca tropecei num queque que me devolveu essa memória quase apagada, numa esplanada tranquila e simpática, ainda por cima no bairro. Nem queria acreditar naquele milagre súbito. Estaladiço, morno, com sabor de queque da Gôndola.
Fiz bem em não querer acreditar: ao terceiro dia, a empregada da clássica “Biarritz” - cheia de fama mas com pouco proveito - informa-me que o queque já esgotou, restando apenas exemplares com nozes. Não é a mesma coisa, pensei, mas venha lá o aparentado. Veio. Era da véspera, de estaladiço tinha zero, e de sabor só mesmo as nozes.
Devolvi, reclamei, quase gritei. E vim embora na dúvida: terá existido, por duas manhãs, aquele queque que me fez sentir um sabor desaparecido? Ou foi apenas uma espécie de lembrete sobre a ideia de que a vida não se repete, num momento em que me davam jeito outras ideias, mais poéticas?
Hei-de lá voltar, para tirar teimas.

Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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