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Pedro Rolo Duarte

14
Abr16

A festa continua

(Crónica desta quinta na plataforma/newsleter Sapo24)

Depois de, na semana passada, termos sabido que alguns agentes e responsáveis pelas investigações policiais no tráfico de droga, no activo ou na reforma, eram parte interessada do negócio, recebendo luvas, camuflando operações, ou mesmo desviando o olhar das autoridades para horizontes dourados enquanto, nas suas costas, os traficantes agiam tranquilamente, esta semana foi a vez das finanças: quinze detidos pela Polícia Judiciária no âmbito de uma operação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção na zona da Grande Lisboa. Estão envolvidos, tanto quanto se sabe, pelo menos três técnicos das finanças, três chefes de repartição e um inspector tributário. “Presumível prática dos crimes de corrupção activa e corrupção passiva para acto ilícito, recebimento indevido de vantagem e falsidade informática” são os módicos de comportamento em causa…
Com noticias deste calibre dentro de casa, torna-se difícil dar atenção aos Panama Papers. Não pelos níveis de relevância de cada um dos casos, mas pela proximidade - que todas as leis do jornalismo determinam que interessam mais ao consumidor. É uma rendição à facilidade (a mesma que nos leva a sentir mais profundamente atentados em Bruxelas do que em Ancara, independentemente do numero de vitimas…), mas não há como dar-lhe a volta.
Os casos internos destas ultimas semanas, que parecem querer tornar-se recorrentes, e que são bem mais fáceis de entender do que os meandros do dinheiro que navega em paraísos fiscais, demonstram a irrelevância de medidas de austeridade para quem pode “contorná-las”, explicam em boa medida fenómenos como o parque automóvel lisboeta, os espectáculos sempre esgotados, os restaurantes cheios - e desanimam quem, apesar de tudo, vai tentando sobreviver ao caos com honestidade.
Apetece desistir, já o disse na semana passada - mas, acima de tudo, impede o cidadão comum de confiar em quem quer que seja.
Um policia que se dedica a desmantelar o tráfico de droga, e é afinal parte integrante desse mesmo negócio? Um chefe de finanças que prefere deixar-se subornar a cumprir a mais básica das suas funções, garantir o cumprimento da lei? Onde chegámos?
E a seguir: o que nos falta saber? Onde está o bando que se segue? Deixámos definitivamente de ter autoridade para, como fazíamos, falar de forma sobranceira sobre a Itália ou os países da América do Sul. Já não observamos o problema - fazemos parte dele. E o Portugal dos últimos anos, a austeridade, a Troika, o empobrecimento generalizado, começa agora a revelar a sua forma de responder à letra. Lamentavelmente, aplica e dá sentido a um ditado popular: ladrão que rouba ladrão…

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