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Pedro Rolo Duarte

24
Set15

A grande ilusão

(Crónica originalmente publicada na edição de Agosto da Lux Woman. A deste mês já está á venda e vale bem a pena...)

Na adolescência, o Verão é geralmente o tempo das grande ilusões amorosas, e das ainda maiores desilusões. Os namoros de Verão arrasam os que vinham do Inverno - mas depois duram pouco e sofremos pelo que perdemos e julgamos nunca mais recuperar. Lembro-me de ser adolescente e sonhar com as “férias grandes”, para depois desejar ardentemente que acabassem para tentar voltar ao que entretanto perdera…
Vivia em ansiedade permanente - mas gostava dessa sensação de abismo. Olhava para os meus pais e pensava: ser adolescente é isto, diferente de ser adulto. Um dia vai passar, e eu serei como o meu pai, tranquilo e bom marido, cuidadoso e cuidador, apaixonado e dedicado…
E toda essa loucura e ansiedade passaram mesmo. Os meus Verões são hoje, emocionalmente, iguais aos Invernos: como têm de ser. Uns assim, outros assado. Pouco importa.
Porque, pelos vistos, na idade adulta o Verão é o momento para outros sentimentos fortes e ansiedades repentinas: as desilusões da política, ou mais rigorosamente do que julgávamos ser o mundo onde queríamos viver. Não preciso de voltar a 2001 e lembrar o 11 de Setembro, e como ele mudou a nossa cómoda forma de viver e de estar, num Ocidente momentaneamente  pacificado. Nem quero ir a 1975 e lembrar o Verão Quente português, que este ano “comemora” o seu quadragésimo aniversário. Basta-me este ano de 2015 e o seu confronto europeu a propósito da Grécia.
No momento em que escrevo ainda existe Grécia e ela ainda faz parte da “zona euro” - mas é indiferente, para esta crónica, o destino do país e do Euro. O que me interessa é simples: este foi o Verão em que a ilusão da Europa foi substituída, sem dó nem piedade, pela desilusão europeia. Não é como na canção, que dizia “Afinal havia outra”, é mesmo sem outra: afinal, não havia Europa.
Houve um sonho europeu, com o qual vibrei com apenas 22 anos, e vi nele uma gigantesca “linha de crédito”: financeira, sim, para pôr Portugal em dia, mas essencialmente social e política. Acreditámos que íamos construir uma fortaleza (ligada a um velho continente…) onde a paz, a democracia, a justiça, a solidariedade e o desenvolvimento eram tão desejados quanto óbvios. A ideia de Europa era um pouco como um casamento: certamente atravessaria as suas dificuldades - mas desde que ambas as partes o desejassem fortemente, seria indestrutível. E como numa família, haveria filhos para ajudar a crescer e educar, netos que veríamos nascer, e cunhados e primos para solidificar a grande família. Ingenuamente, percebo agora, ignorei os pecados mortais que inteligentemente a Igreja Católica consagrou: a gula, a avareza, a inveja, a soberba, para falar apenas dos que contam para este fim de ciclo. Estupidamente, fiz de conta que a raça humana, em especial na Europa, tinha aprendido a lição e mudado radicalmente depois de 1945.
Nada disso. Na essência, nada mudou, e os pecados estão aí para serem servidos e praticados. A desilusão deste Verão foi essa: perceber que a ideia de Europa não passou disso mesmo, uma ideia. Que houve casamentos de conveniência, infidelidades, traições, amantes e amores desfeitos, como nos casais mais primários e banais; e que os senhores e senhoras que elegemos para orientar tudo isto são afinal fracos - e pouco, muito pouco solidários.
A crise na Europa, qualquer que seja o seu desfecho, reproduz as nossas relações amorosas, de amizade, o mundinho onde nos fechamos todos os dias: cada um por si, muito poucos dispostos a dar o corpo ao manifesto. E deixa o sabor amargo a “mais do mesmo”: o reconhecimento de que nós, os do Sul, nunca seremos como “eles”, os do Norte, e que no fundo tudo obedeceu à mais clássica das exclamações: “É a economia, estúpido!”.
Assim me sinto, estúpido e desiludido, cumprindo o que a adolescência me ensinou sobre o Verão: é muito bom, mas quase sempre acaba mal…

Blog da semana

(Un) Naive. Blog de uma jovem de 21 anos que, nos intervalos do curso de Relações internacionais, viaja, faz voluntariado por todo o mundo, e inspira entre textos e fotografias. É o blog da Rafaela.

Uma boa frase

“O Outono é feito de conforto e de amparo, como um colo apetecido onde se deita a cabeça para apaziguar o corpo e a alma, ou o calor de um abraço do qual não queremos soltar-nos." Isabel Mouzinho, Isto e Aquilo

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