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Pedro Rolo Duarte

21
Nov16

A insustentável insolvência da memória

(Esta semana, reparei que muitos jornalistas e ex-jornalistas do Diário de Notícias deixaram, entre redes sociais e blogues, testemunhos e memórias sobre o edifício-sede do jornal, junto ao Marquês. Percebi rapidamente que se levava a cabo, por fim, uma ideia que várias administrações do DN tiveram, mas que só esta foi capaz de levar a cabo: vender o edifício e mudar para paisagens mais baratas. Entre tentar o desabafo e deixar a memória, cá fica também o meu testemunho…)

 

Escrevi no Diário de IMG_2384.JPGNotícias, ininterruptamente, entre 1982 e 2007. Ou seja, durante 25 anos. Não fiz o percurso comum, do estágio aos cargos de direcção, mas estive sempre por perto e muitas vezes por dentro. Comecei da forma mais óbvia: ofereci-me, por carta, ao Alexandre Manuel e ao Rogério Petinga, que tinham poderes sobre a área dos espectáculos. Publicara (gratuitamente), durante algum tempo, no “Correio dos Jovens”, do Correio da Manhã, era altura de dar um passo em frente. Consegui. Por 12,50 euros, “conquistei” meia página semanal, sobre música e espectáculos, no suplemento de sábado. Mais tarde, o Mário Bettencourt-Resendes chegou à Direcção do jornal e, sem me conhecer de parte alguma (na primeira vez que jantámos, vi-me forçado a perguntar ao empregado do restaurante qual daqueles 4 ou 5 homens, que estavam sozinhos na sala, era o Mário que eu procurava…), puxou por mim: escrevi sobre futebol, fiz entrevistas, crítica de TV, tornei-me cronista fixo do primeiro caderno.

Só não fui editor-executivo porque, convite feito, no dia em que iria aceitar, vi um artigo meu, publicado um mês antes na revista “K”, com o titulo “O Jornalismo já Acabou”, fotocopiado e ampliado, pendurado pelas paredes da redacção, com umas bocas do género “este vai ser o nosso próximo editor-executivo!”. No artigo, que era um exercício de puro futurismo, num tempo em que nem havia internet, ousei “adivinhar” (a partir da chegada tímida do “Photoshop”…) que, num tempo não muito distante, o consumidor iria poder escolher a verdade que lhe desse jeito ou agradasse, porque a profusão de fontes, canais de comunicação, e formas de manipular a realidade, iriam matar uma das essências da profissão: a mediação. Não queria ter razão, acreditem, mas infelizmente parece que estou a tê-la…

Voltando ao DN: não gostei daquele ambiente pouco acolhedor, entre pares, na redacção, era demasiado novo para deixar de ver o trabalho como um prazer, e voltei atrás, deixando-me estar mais uns meses no caos divertido da “K”. Provavelmente, em boa hora - pois foi esse recuo que, uns anos mais tarde, deu origem ao DNA. Na verdade, o suplemento começou fora do jornal, como um “fornecimento de serviços”, e só em 2000 ocupei um posto fixo, com contrato e regalias, no DN - o que durou até 2006, com a passagem de um ano pela direcção do jornal, a convite do Miguel Coutinho. Outras histórias…

Agora, quando vi esses testemunhos de colegas sobre o edifício, procurei na memória uma imagem que esses 30 anos me tivessem deixado. Não pelo jornal, mas pelo edifício. E o que me ocorreu foi um momento que constituiu mais uma lição de vida - a que só os anos podem dar valor. Passou-se num assembleia geral de trabalhadores, em plena redacção, no dia em que a Lusomundo anunciou a venda do edifício e a passagem do DN para Cabo Ruivo, junto à Expo (venda mais tarde abortada, muito por força da chamada “sociedade civil”, aliada à família Soares). Para quem, como eu, jovem jornalista, já tinha trabalhado em Algés, Restelo, Saldanha, Bairro Alto, Amoreiras, Lumiar, uma mudança era apenas uma mudança e não valia nada. Mas, depois de ouvir os argumentos da maioria dos presentes - alguns tinham casado e escolhido casa para comprar em função da localização do DN… - entendi que, para a maioria daquelas pessoas, aquele edifício não era apenas um local de trabalho. Era uma segunda casa. Em casos mais solitários, a primeira. Viviam em função daquela geografia - e tinham construído uma vida à sua volta.

Noto que, mais de dez anos depois, apesar dos actuais donos do jornal se estarem nas tintas para este facto, parece ter regressado, nos países civilizados, a cultura da geografia como parte integrante e valor-acrescentado nos contributos para a produtividade e a qualidade do produto final. Mas isso não interessa nada, é coisa de países nórdicos…

Em rigor, não me interessa muito para onde vai o DN, nem se a engenharia financeira dá razão ao negocio. Mas sinto esta mudança como um passo mais em dois sentidos que, noutros lugares, já se percebeu que não levam a lado algum, a não ser ao abismo:

1. Uma marca é feita pelo conjunto de pessoas que a fazem todos os dias - descartar o que pensam ou sentem é como tirar baterias a uma lanterna.

2. Pretender apagar a memória - das pessoas e dos factos -, com uma mudança de localização, pode ter bons efeitos práticos, mas na bolsa dos valores emocionais de uma marca, como o Diário de Notícias, é o mesmo que acreditar na insolvência do passado.

... E isso eu aprendi, com os mais velhos, naquele assembleia que tinha tudo para parecer anacrónica - mas era afinal a única que ainda fazia algum sentido: podemos levar à falência e declarar a insolvência de tudo. Excepto da memória. O DN já não é o que foi - mas também já não será o que nunca foi. Ou dito de outro modo: podem tirar o jornal do seu lugar; jamais tirarão o jornal do lugar que lhe pertence.

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