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Pedro Rolo Duarte

19
Nov14

A moda somos nós

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês saiu hoje, e vale a pena...)

Sei que este 2014 tem sido recheado de polémicas, mas confesso que aquela que mais me divertiu, talvez por se ter vivido no Verão, foi a que opôs os motoristas de táxi e os Tuk Tuks que repentinamente invadiram Lisboa. Vi e li várias reportagens sobre o tema - os taxistas queixam-se de concorrência desleal, falta de regulamentação, balda generalizada… - e o que retive foi uma imagem que, de alguma forma, marca a vida nas cidades portugueses nas ultimas décadas: a do choque entre quem se habituou a viver de “certa maneira”, protegida e sem risco, garantida e tranquila, e as novas gerações, que chegam ao mercado com vontade de ousar, sem medo de inovar, e acima de tudo sem preconceitos sobre horários, estilos de vida, formas de trabalhar. Não passa pela cabeça de um taxista a existência de um Tuk Tuk - mas passa pela cabeça de um dono de um Tuk Tuk que existam táxis. Faz toda a diferença.
É a essas novas gerações - já são várias, se começarmos a contar com o Bairro Alto dos anos 80 e 90 - que se devem os melhores lugares-comuns do ano: Lisboa e Porto estão na moda, o turismo cresce, a imprensa internacional põe no “top mais” uma ou as duas cidades, e vive-se uma dinâmica empresarial e comercial incomuns e provavelmente únicas nos últimos 100 anos. Restaurantes, cafés e bares, lojas conceptuais, hosteis, hotéis de charme, ideias loucas (como a das toalhas de praia Origama, para só citar uma…), ideias obvias (como a promoção do pastel de nata!), de tudo um pouco tem surgido nas duas cidades, e tem cimentado esta lógica de cidade pequena mas mexida, cool, com onda e com estilo.
Porém, o que explica o sucesso turístico de Lisboa e do Porto tem menos que ver com estrangeiros de visita a Portugal e mais com portugueses a viver as suas cidades. Se pensarmos nas grandes capitais europeias, quais são os lugares mais divertidos, onde apetece estar e viver a cidade? São os bairros e praças onde os locais também vão. Não há comparação entre a Torre Eiffel, pejada de flashes indiscretos, e Saint-Germain ou o clássico Quartier Latin; o Raval de Barcelona vale todo o Passeig de Gracia; se falarmos de Londres, Notting Hill ou Shoreditch ganham aos pontos a Picadilly, como já antes Covent Garden valia mais que o próprio Soho.
Quero dizer: o segredo do sucesso desta Lisboa e deste Porto renascidos das cinzas (no caso do Chiado, literalmente…), resulta das ideias e das dinâmicas empreendedoras de muita gente, claro que sim, mas também da circunstancia dos lisboetas e portuenses terem aderido e estarem a viver esta “movida”. Eu vi lisboetas no novo Mercado da Ribeira, ou no Mercado de Campo de Ourique, ou no Intendente, ou mesmo nas lojas da Catarina Portas, antes de ver por lá turistas. Os melhores lugares de uma cidade são aqueles que são vividos pelas suas pessoas, e partilhados com as que as visitam. Esta é a chave e o segredo do sucesso que vivem Lisboa e Porto. Saibamos preservá-lo, alimentá-lo, e tratá-lo com carinho.
Quanto à polémica dos taxis e dos tuk-tuks, bom, é verdade que os lisboetas não andam de tuk-tuk, por isso não se aplica a minha teoria sobre partilhas… Mas aqui entre nós: não fazia mal nenhum aos motoristas de táxi aproveitarem esta onda saudável de amar a cidade e quem nela vive ou a visita e, por exemplo, aprenderem inglês. Ou cultivarem o asseio e a simpatia. Talvez mesmo fazerem dos seus carros um melhor porto de abrigo para quem neles viaja. Ganhávamos todos com isso - e lá juntávamos uma vez mais os cidadãos e quem visita as cidades. Sérgio Godinho um dia cantou, e ninguém mais esqueceu: “isto anda tudo ligado”.

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Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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