Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Pedro Rolo Duarte

07
Jan17

A peste voltou

(Quinta-feira que passou, na plataforma/newsletter Sapo24)

Tinha à minha frente a ultima crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso e estava preso ao destaque que o próprio jornal fez do texto: “As redes sociais são a peste de hoje. O seu veneno espalha-se como a peste, destrói como a peste, mata como a peste”. Não é novo, vindo do Miguel (e salvaguardo que sou amigo dele…), mas vai-se tornando menos razoável à medida que, abordando o fenómeno como se fosse um mundo todo igual, e sempre nocivo, acaba por parecer um militante do próprio espaço virtual, e embarcar no pior que as redes sociais têm: a generalização da ignorância.
A frase de Miguel faz pouco sentido no momento que vivemos - é equivalente a abater sumariamente os centros comerciais para defender o comércio tradicional; ou defender o fim do You Tube em nome dos cinemas de bairro ou da televisão clássica. É a negação de uma evidência que já não podemos contrariar - e que nasceu de geração espontânea, e cresceu sem controlo e sem filtro, no melhor e no pior que essa explosão caótica pode ter. Nunca é demais lembrar: as redes, todas as redes, apareceram antes que houvesse quem as controlasse e transformasse em negócio. Como tudo o que é novo, e tem qualidades e defeitos intrínsecos, é facilmente criticável. Neste caso, e como espaço de liberdade infinita, é ainda mais frágil: serve de depósito de lixo para quem não sabe como limpá-lo da sua existência, de terapia sem terapeuta para as frustrações de muitos, e até serve para alimentar causas - que podem ser louváveis, como as que nos aproximam quando há um atentado terrorista, ou lamentáveis, quando cultiva ódios e mentiras que conduzem a esses mesmos atentados.
Mas não era nisso que pensava quando fui “interrompido” pela crónica do Miguel. Estava, isso sim, estupefacto com o ranking dos 20 programas de televisão mais vistos em 2016, e de como essa lista, à luz de um argumentário preconceituoso, me poderia levar a vir para aqui gritar e espernear.
Tão simples como isto: os 20 programas mais vistos na TV portuguesa em 2016 foram todos jogos de futebol, com excepção do 15º, que é… uma “Flash Interview” do Europeu de futebol!
Que dizer do triste Top que nos é oferecido, e que leva um Portugal -País de Gales a ter mais de 3,7 milhões de espectadores, ou um Benfica - Bayern cerca de 2,5 milhões? Posso chamar-lhe também uma peste? Posso falar de alienação e dizer que o futebol é o culpado da ignorância nacional, do desinteresse generalizado pelo estado da Nação? Posso recordar os índices de abstenção eleitoral?
O caminho mais fácil, face a este quadro de miséria, era apelar à proibição, criar legislação que impedisse tanto futebol na TV, chamar ao futebol uma “doença” e, no limite, acusá-lo de matar como a peste.
Porém, nem é preciso evocar a palavra “democracia” para aceitar que jamais mudaremos uma paixão nacional como esta. O futebol mobiliza os portugueses para lá do alcance da compreensão racional - e querer contrariar a evidência é como pretender parar o vento com as mãos.
Eu, que gosto de futebol mas não mudo a minha agenda por causa de um desafio, fico triste quando vejo o top dos programas mais vistos. Mas longe de mim chamar-lhe peste, convocar o diabo ou o antigo “ópio do povo”. É tentador ver o mundo a preto e branco e dividir tudo em bom ou mau - mas é por isso que ele, o mundo, anda tão agitado. E doente. Não é por causa das redes sociais.

Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D