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Pedro Rolo Duarte

25
Mar15

A proporção da felicidade

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A edição de Abril saiu hoje e é especial: 14 anos de vida!)

A ideia de felicidade, como a ideia de bem estar, está sempre em cima da mesa: todos desejamos esse patamar, lutamos e vivemos uma vida inteira procurando chegar a um lugar onde nos sintamos, por fim, em paz. Isto é, felizes.
Reparo, porém, que essa ideia varia de pessoa para pessoa, em função da sua condição, dos seus valores, da sua cultura. Por mais que nos possa fazer confusão a forma aparentemente caótica e pouco higiénica como se vive em países com outras culturas, como a India, é óbvio que boa parte daquela população é feliz na sua condição, e não se vê como nós a vemos. Nem aspira ao que aspiramos.
E esta diferença, que sabemos estabelecer entre povos, nem sempre sabemos aplicar ao nosso próprio mundo.
Quando estalou a crise no grupo Espirito Santo (como sempre que há um facto que abala o mundo financeiro), houve em sequência um vasto sector da opinião publica que comentou de forma simples: “os que eram ricos ficaram apenas um pouco menos ricos”. É comum ouvirmos a frase “não tenhas pena deles, que ainda lhes sobra muito”. Até quando a Troika andou por cá e o Governo apertou o cinto dos portugueses quase até à asfixia, havia quem dissesse “eles aumentam impostos porque ganham tanto que não lhes toca o aperto”. Admito que tudo isto seja verdade. Mas, na proporção das ambições e exigências de cada um, podemos admitir que a infelicidade que atinge o milionário que perde um milhão não é muito diferente da que atinge o trabalhador a quem tiram 10% do seu vencimento mil eurista. Não questiono que o trabalhador sinta mais na pele ou seja mais prejudicado na sua qualidade de vida - mas não deixo por isso de reconhecer que ambos, na proporção da sua ideia de felicidade, sofrem com este facto.
E se é polémica esta ideia num país que vive, deprimido, uma crise que parece nunca mais acabar, gostava de a estender ao resto da vida. Porque também no amor - e era aí que queria chegar… -, a proporção da felicidade mede-se mais pelo que já vivemos e sentimos do que pelo que encontramos de seguida. Quem pode viver um amor suave e mediano depois de um grande e profundo amor? Quem pode ver paixão num entusiasmo puramente fisico depois de sentir o arrebatamento de uma paixão que tudo devora e leva à frente?
O principal drama de quem já amou, é voltar a amar. O pior de quem já teve é ter deixado de ter e sentir essa diferença, esse declive, esse desconforto. Talvez por isso, as conversas sobre as relações amorosas - e mesmo os livros, as teorias, os conceitos dados como adquiridos - morrem na praia das expectativas de quem obviamente não viveu o mesmo amor do vizinho do lado. As ideias feitas, os livros de auto-ajuda, os conselhos amorosos a granel, as modas, procuram tornar igual o que é sempre diverso, e fazem do sentimento único um sentido unico. Nunca é.
Não é fácil aceitar e respeitar essa diferença - mas se cada um de nós conseguir relativizar o mundo que o rodeia e, nessa medida, entender a proporção da felicidade em todas as suas dimensões, do bem estar ao amor, dos desejos aos sonhos, das ambições à cultura, vamos ser todos um pouco mais felizes. Porque a desgraça que nos bate à porta tem o peso que lhe damos, sim, mas também tem a relatividade de tudo o que já vivemos e do que sonhamos viver. Na proporção da vida de cada um, desgraça e sorte podem ter o mesmo peso, e ambas navegar nas águas da infelicidade. Quem sabe o que faz feliz o vizinho do lado? E por que raio a galinha da vizinha aparenta ser melhor do que a minha?
Não é. A galinha da vizinha é apenas a galinha dela. Na sua proporção. Que não é a nossa. Ser feliz é, digo eu, encontrar a proporção certa para cada um de nós. E viver com ela.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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