Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

28
Jan16

A propósito de eleições

(Crónica desta quinta na plataforma Sapo24)

Sempre que há eleições, lembro-me de um episódio caricato que vivi há duas ou três vidas - e que me ajuda a relativizar a vida, as pessoas, a política. Ao ver a reportagem da SIC, com Marcelo Rebelo de Sousa, na passada segunda-feira, primeiro dia do candidato eleito, essa historieta voltou a sentar-se à minha frente. E é irresistível contá-la. Não tem qualquer relevância, mas revela o carácter de uma pessoa. Ou a falta dele. Passou-se algures a meio dos anos 90. Eu era - ainda sou - amigo pessoal de uma então candidata a uma autarquia local relevante no país. Tão relevante que a Sic-Notícias a tinha escolhido para ser uma das pessoas que protagonizaria um frente-a-frente com o candidato que se lhe opunha. Era um tempo em que ainda se respeitavam as decisões editoriais, e o canal escolheu meia-duzia de autarquias cujo peso mediático merecia atenção redobrada. Nada habituada a debates deste tipo, menos ainda na TV, pediu ajuda aos seus amigos, desafiando-os para algumas noitadas de perguntas e repostas que podiam surgir no programa. Do meu lado, pediu-me que levasse mais um jornalista. Do seu lado, levou dois camaradas seus. Um deles era José Sócrates, então jovem deputado do PS - e foi assim que conheci a figura. Não apenas me pareceu simpático como criou empatia comigo - e conseguiu. De tal forma que, na semana seguinte, na segunda noitada de perguntas e respostas à candidata, jantámos os dois, umas horas antes, um belo peixe ao sal num restaurante de Algés. A amizade não passou para lá dessas duas ou três noites. Mas Sócrates fez questão de me tratar por “tu”, de que o tratasse por tu, e não evitou a conversa informal entre duas pessoas com uma amiga comum, idades próximas, ideias não muito divergentes. A verdade é que a nossa “candidata” ganhou, uns dias depois (ou antes, já não sei precisar…) António Guterres era nomeado primeiro-ministro depois de vencer quase em simultâneo eleições gerais - e, no meio de todo este alvoroço socialista, a minha amiga, entretanto alcandorada a presidente de câmara, comemorava, como habitualmente, o seu aniversário, com uma festa em casa. O (futuro) governo de Guterres marcou presença em força. Ainda não havia tomado posse, mas era como se já fosse: segurança reforçada, policia à porta de casa, aparato qb. Senti-me mais numa festa política do que, como em anos anteriores, num aniversário de uma amiga. Passado o crivo da segurança, lá entrei na festa. A animação reinava, até porque parte daquelas pessoas já sabia que ia pertencer ao novo Governo, o que dava algum suplemento de vitalidade ao evento. Todas as pessoas me trataram da mesma forma como antes me haviam tratado: havia quem me cumprimentasse com um “você” próximo e simpático, como Guterres e Ferro Rodrigues, havia quem mantivesse a frieza e distância anteriores, como Armando Vara, havia quem não me conhecesse e nem sequer olhasse. Havia de tudo, até pessoas que só me conheciam por ser “o filho do Rolo Duarte e da Maria João”, como o Duarte Brás.

Só notei uma diferença. Ao ver-me, José Sócrates -. o mesmo Zé que duas semanas antes me tratava por tu, e falava de peixe ao sal, futebol e política durante um jantar descontraído - olhou-me lá de cima dele próprio, numa repentina e nova pose, entre a superioridade e a distância, e perguntou:

- Você, também por aqui?

Nesse momento, percebi quem ele era e a que espécie de gente pertencia. E não me enganei. Nem que fosse apenas por este traço de carácter, Marcelo Rebelo de Sousa merece a eleição que ganhou. Pode ter um sem número de defeitos - mas acredito que a sua atitude para com aqueles com quem se cruza será a mesma de sempre. Antes e depois do lugar para que foi eleito. Faz toda a diferença.

5 comentários

Comentar post

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D