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Pedro Rolo Duarte

08
Nov16

A verdade mentirosa dos números

(Na plataforma Sapo24 desde quinta-feira passada....)

A história é velha, e sempre igual: eu como uma galinha inteira, o leitor come raspas. Para efeitos estatísticos, cada um de nós comeu meia-galinha… E não consigo deixar de pensar nesta anedota sempre que se publicam estatísticas - talvez a verdade mais mentirosa que a aritmética criou. Nos últimos dias, tivemos uma série de estudos “oficiais” que servem para todos os gostos, seja o comilão da galinha ou o esfomeado que ficou a ver navios.

 A saber, e para começo de conversa: o Instituto Nacional de Estatística veio anunciar, com optimismo, que a emigração baixou 18,5% em 2015. É certo que o número dos que sairiam, entre emigrantes temporários e de longa duração, se manteve assustadoramente acima dos 100 mil, como também é certo que regressaram mais portugueses à pátria. Mas lá vem a cena da galinha: no saldo final, o défice continua acima dos 10 mil cidadãos a mais fora de portas, já descontados os regressos.

Confesso: estes números não me dizem nada, nem consigo, como os “especialistas”, ver-lhes sinais de um presumível “capital de esperança” que anima os meus concidadãos e os leva a acreditar que dez euros a mais numa pensão miserável é um bom argumento para apostar em Portugal. Pelo contrário: no mesmo dia em que estas notícias eram divulgadas, uma infeliz coincidência levou-me a passar o dia no concelho de Odemira, entre São Teotónio, Brejão e Almograve. Apesar de ser feriado, havia muita gente a trabalhar nas estufas que inundam toda aquela costa alentejana. E deu-se este fenómeno extraordinário: o maior número de portugueses que vi juntos eram os que saíam da missa do meio-dia…

No resto, entre supermercados e cafés, nas ruas, nas praças, entrando e saindo de camionetas, vi magotes de trabalhadores da Índia, do Nepal, do Bangladesh. A população envelhecida do Alentejo não aguenta a dureza do trabalho, e os mais novos fugiram para novas paragens. O exemplo é empírico e fruto de mera observação - mas não demonstra qualquer “capital de esperança”, como não deixo de ouvir os filhos dos meus amigos, quase todos na casa dos 20 anos, darem como certo o abandono do país à procura de melhor trabalho, mais bem remunerado, longe daqui.

Vá, para um final feliz: gosto de saber que os portugueses casam mais, e divorciam-se menos. Para este dado, o casamento homossexual terá dado o seu relevante contributo - mas a ver por estudos semelhantes feitos aqui no país vizinhos, a descida dos divórcios deve-se mais à crise - ou seja, à falta de dinheiro para assumir uma vida a solo… - do que ao amor eterno. Só espero que o aumento dos casamentos, apesar de tudo, seja por amor - e não apenas por interesse na partilha das despesas. E das galinhas.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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