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Pedro Rolo Duarte

21
Fev14

Admirar, admiração

(Crónica originalmente publicada na Lux Woman. A deste mês saiu esta semana e apesar de ter o "cabelo cortado", está excelente em forma e conteúdo...)

 

A internet, as revistas e as televisões estão entupidas de debates e matérias sobre a chave para o casamento duradouro e feliz. Ou pelo menos das relações amorosas, se de casamento se quiser evitar falar. Faz parte dos mistérios maiores da humanidade, as ultimas décadas transformaram-no numa espécie de mito urbano (e até já rural...), e prometo que não serei eu a desvendá-lo. Ainda assim, ouso trazer uma achega...
Comecemos como deve ser: num daqueles banais programas de televisão onde toda a gente vai promover o seu filme, disco, livro ou novela, uma actriz de TV, cujo nome nem sequer fixei, surpreende-me. Pergunta o apresentador qual é o segredo para um casamento de mais de 25 anos. E em vez das respostas do costume – o amor, o respeito, os filhos, a família... -, ela diz: “temos uma enorme admiração um pelo outro, pelo que fazemos, pelo nosso trabalho”. Ela é actriz, ele é músico (ou está ligado à música, não percebi bem). Não falou da beleza nem da família nem do respeito. Nada disso. “Reduziu” a sua longa história de amor ao verbo admirar.
Fiquei a pensar naquilo.
Fui remexer no passado e pensar nas mulheres que têm passado pela minha vida – e eu pela delas -, procurando confirmar ou não esse item da admiração, no qual rara ou alguma vez pensei. Na soma de relações que pontuam quase 50 anos de vida, há de tudo, “como na farmácia”, e há falhanços para todos os gostos. Mesmo os “acertos” são a termo incerto ou, como diz uma amiga bem humorada, “a recibo verde”.
Porém, é um facto que a admiração persiste nas relações mais fortes, ou nas que, parecendo fracas pela duração temporal, marcaram e ficaram bem para lá do tempo que duraram. Admiração pelo talento, pelo trabalho, pela forma como levavam a vida, pela forma como procuraram saídas para si mesmas.
Admirar o outro, olhar o outro com orgulho, sentir o peito cheio quando o sucesso vence, é bem mais do que parece quando falamos de uma relação amorosa. Consolida convicções, prega certezas em cima de duvidas, e constitui uma espécie de corrimão até para não tropeçarmos no que nos desagrada no outro.
Quando falo em admiração não me refiro apenas ao sucesso. Também há admiração por quem sabe reconhecer o erro, por quem sabe cair e levantar-se, por quem tem a humildade de pedir desculpa a si próprio e aos outros. Ou simplesmente tem a capacidade de resistir e recomeçar do zero. Admirar é saber ver o melhor mesmo no pior dos momentos. E é muito.
Não me tomem por politicamente correcto: é evidente que a beleza exterior conta muito, é evidente que concordo com a anedota que diz “quem só pensa em beleza interior é decorador”, e é mesmo muito evidente que antes e depois de tudo há a empatia, a pele, o toque. Não descarto nada disto na contabilidade do que pode dar certo e errado numa relação. E há os tempos em que as pessoas se encontram ou desencontram, e há o incontornável humor, e o que nos torna comuns ou incomuns. Há demasiados factores para que relevemos um só ou descartemos algum. Mas há definitivamente um factor Z que pode passar por essa admiração que supera a expectativa, que alimenta e acorda o desejo, que nos comove e não nos deixa demover. Seja pelo talento mais elevado ao piano, ou pelo mais simples de “barriga encostada ao fogão”. Admirar é ver no outro o nosso sonho e a virtude que procuramos toda a vida. É imenso.
E assim aconteceu: por causa de uma banal entrevista de TV, juntei o verbo admirar à “checklist” das razões de sucesso (ou insucesso) do amor. Percebi um pouco mais de mim – e dos outros. Gostar é muito bom – mas em cima disso admirar, é tão melhor...

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