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Pedro Rolo Duarte

07
Mar16

As duas faces da liberdade

(Derradeira crónica publicada na revista Lux Woman. A deste mês...)

São 4.46 da manhã e estou a escrever. Não conseguia adormecer, já tinha a ideia desta crónica na cabeça, e perguntei a mim próprio, ainda na cama: se sou um freelancer, um profissional livre, por que raio não posso levantar-me e ir escrever? Posso. E vim. Mas sei bem que sou não apenas uma excepção, como um privilegiado. Ainda que os privilégios tenham um preço alto… Quando decidi ser livre e trabalhar por conta própria, percebi rapidamente que perdia uma série de benefícios: subsídios, férias pagas, baixas médicas, entre outras. Mas também ganhei liberdades, como esta de decidir aproveitar uma insónia para escrever uma crónica… Ao fim destes quase dez anos, confesso: não tenho a certeza de qual é a melhor das inseguranças. Mas acredito que a liberdade - mesmo a falsa liberdade de ter tempo mas não ter dinheiro… - vence o horário, a rotina e falsa ideia de que gerimos o nosso tempo. Se for sincero, desistam: raramente isso acontece. Hoje é uma excepção. O prédio está em silêncio. O bebé do segundo direito dorme tranquilo. Os vizinhos do lado não discutem a relação aos gritos, como de costume. Em frente, no Estádio do Inatel, não decidiram cortar relva de madrugada nem aparar as árvores. Oiço o silêncio - que é das coisas mais difíceis de ouvir numa cidade. Por escassos instantes, sou livre - porque logo começam os aviões a aterrarem perto. E o telefone lembra compromissos para breve. E os primeiros carros largam os seus lugares nocturnos. Há liberdade quando se trabalha a solo - mas o preço dessa liberdade é mais alto do que a beleza da palavra. Nunca mais tive férias quando quis. Nunca mais tive o tempo livre marcado num calendário. Nunca mais fui descontraído com a agenda, nem com as contas, nem com o dia de amanhã. Acima de tudo, nunca mais dormi da mesma maneira…

… Antes, dormia conforme a minha rotina diária. Era certa e sabida. Agora, durmo conforme os compromissos que a agenda me vai marcando. Hoje posso dar-me ao luxo de ter esta insónia - se fosse amanhã, não podia. Mesmo que a rara insónia não seja escolhida por mim. Antes, sabia que havia subsidio de férias e natal, agora sei que nunca há. Antes, sabia que podia adoecer, agora sei que não posso (poder, posso - mas não devo…). Quando escolhi ser jornalista, não pensei nestas variáveis. Hoje vejo que são comuns a quase todas as profissões, e que a ideia de segurança no trabalho é já tão antiga e falível como estacionar o carro na cidade sem pagar. Ao fim de 30 anos, continuo a fazer o que escolhi e gosto - escrever, comunicar -, mas diariamente penso em mudar, em arriscar, em experimentar. Até faço um programa na rádio sobre isso. Nesses instantes de dúvida, recordo uma lição de um amigo gestor. Disse-me ele: “Tudo o que já sabes tem um valor. A tua missão é pôr esse valor a render o dinheiro que vale”. E eu vou tentando… Raramente consigo.

Persisto nesta ideia romântica que, não sendo dele, o meu pai me ensinou: se fizer apenas o que me dá prazer, passarei a vida sem trabalhar. E ainda me vão pagar por isso. Tenho tentado. E às vezes tenho conseguido. Agora acho que vou conseguir dormir.

 

PS - Há coincidências incríveis: estava a rever a crónica, antes de a enviar, quando recebo um mail da directora Rita Machado. Tudo o que começa tem um fim, e eu sabia que chegaria o dia em que me tocaria a mim. Toca agora. É estranha a coincidência: é sobre insegurança e trabalho que escrevi esta minha crónica - sem saber que era a última… Despeço-me com esta certeza: a equipa da Lux Woman tratou-me, durante estes dez anos em que mensalmente aqui escrevi, com profissionalismo, mas também com doçura, atenção e cuidado. Provavelmente, continuarei a vir a estas páginas de vez em quando. Mas gostava que ficasse escrito que este foi um lugar onde fui muito feliz - e que tenho a certeza de que não deve ser simples, nesta fase da vida da imprensa, dirigir uma revista e manter a qualidade que a Lux Woman tem conseguido manter. Por isso, mais do que um adeus ou um até já, a última frase é para a fantástica Rita Machado: força, e boa sorte!

 

PS 2 - Entre os vários comentários que esta crónica convocou, destaco este mail, de uma leitora, que me tocou, mexeu comigo, e com a sua autorização aqui deixo: “Li a sua crónica da LuxWoman sentada na Segurança Social, à espera da minha "apresentação quinzenal" à qual chamo de reunião quinzenal (para me parecer melhor). Sou muito nova e estou desempregada, digamos que o que trabalhei descontando não foi muito e o que já trabalhei sem descontar, juntando a isso, já foi muito bom (e mesmo assim não me leva a lado nenhum). Li e reli a crónica e infelizmente trabalhar por conta própria é um pau de dois bicos. Ora temos uma determinada liberdade, ora não temos porque o Estado depende mais de si do que os seus filhos. É triste viver assim, é triste ser-se uma desempregada nova, que tem "a vida pela frente" mas que desanima sempre que vai à segurança social e olha à sua volta, sempre que envia cerca de 20 ou mais currículos em cada duas semanas, cuidadosamente escritos e com carta de Apresentação e não recebe uma única resposta, nem um "agradecemos, no entanto, irá ficar na nossa base de dados", é triste sermos "tantos por 1 vaga/oferta de trabalho". É tão triste o que nos rodeia. É ainda mais triste a dependência de todas as contribuições que fazemos ao longo da vida e que nunca na vida nos irão fazer a nós. É triste a sua, a minha, a nossa, a vossa situação. Melhores dias virão e jogue no euromilhões, aposte em mais coisas, num negócio, em ser mais feliz se assim o quiser. E sim, há dias radiosos, nos quais temos dinheiro, saúde, trabalho, felicidade e vontade de sair de cama (e ter insónias para fazer coisas que gostamos). No entanto, há dias em que não sabemos o que nos leva a levantar-nos dela. Há dias e dias”.

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