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Pedro Rolo Duarte

18
Mar17

Do poder ao pântano

(Quinta-feira, na plataforma Sapo24)

 

A entrevista que o Dr. Pedro Santana Lopes deu à TSF e ao “Diário de Notícias”, no fim de semana passado, tem momentos hilariantes – ou de chorar, conforme queiramos olhar a política “à portuguesa” -, mas é tudo menos insignificante (junta com a de Assunção Cristas ao “Público”), para perceber o que se passa à direita do PS.

O sucesso (pelo menos, até agora) da “Geringonça”, a forma “hábil” como actua o primeiro-ministro – a palavra “hábil” é bastas vezes usada por Santana para caracterizar António Costa - e a chegada de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência, com o formato que adquiriu e a surpreendente mão dada ao Governo, deixaram o PSD confundido, perdido, enredado num conjunto de nós que ninguém ousa desatar. A sensação de falta de rumo nota-se em Pedro Passos Coelho – a começar na pose, algures entre primeiro-ministro que se recusa a deixar o cargo, e líder da oposição que consegue ser mais trauliteiro do que se esperava de um ex-primeiro-ministro... -, nos tiros nos pés dos seus acólitos, e resulta em entrevistas como esta, onde Santana Lopes parece um analista independente e não um militante do PSD, mais preocupado com o poder do que com o país, e mais incomodado com Marcelo do que com António Costa...

A questão que ele coloca é mesmo a do poder: “Como é que o PSD e o CDS regressam ao poder? Parece que há aqui falta de diálogo ao meio, do sistema partidário. É a sensação que eu tenho às vezes, porque PSD e CDS fazerem por voltar ao poder sem algo de novo - não estou a falar de lideranças -, é complexo”.

Repare-se que Santana Lopes não fala em projectos nem ideias para Portugal, ou reformas por fazer – fala apenas de regresso ao poder, deixando-nos a sensação de que esse é o único desígnio que o PSD consegue afirmar. Pelos vistos, sem grande sucesso.

Mas o mergulho no charco não fica por esta “confissão” da falta de GPS quando o partido não está no governo. Vai mais longe quando praticamente ignora o estado da nação e prefere observar o social-democrata Marcelo na Presidência. Diz Santana, com alguma arrogância, para não dizer soberba, sobre um homem que fica, politica, cultural e eticamente, a anos-luz do presidente da Misericórdia: “É manifesto que Marcelo, às vezes, tem exagerado e, muitas vezes, tem feito de primeiro-ministro nas intervenções que faz, o que dá imenso jeito ao dr. António Costa”. E ao ser-lhe pedida uma nota para o Professor, a lata persiste: ”14,5. Entre o bom pequeno e o bom grande, mas acho que é mais bom grande. É 15, na prática. Eu só não digo que é muito bom por esse excesso e pelo equilíbrio com a oposição. Mas acho que tem feito um bom mandato, um bom primeiro ano. Mas também levo em linha de conta o facto de ser um primeiro ano”.

Estivesse Pedro Santana Lopes na liderança do PSD e eu diria que tinha perdido a cabeça. Estando afastado, mas “andando por aí”, como gosta de dizer, pensa o PSD com tal desdém e menosprezo que se dá ao luxo de sugerir que falta “algo de novo” (quem sabe outro Partido...), e que o Presidente da República, ainda que social-democrata, não cumpre a missão como seria expectável. Ou seja: perdidas as referências e o poder, está esvaziado o PSD, e com ele as ambições de quem por lá anda. Outro tiro no pé, e mais uma acha para a fogueira onde arde lentamente o fantasma em que o partido se tornou.

A resposta a tudo isto podia estar em Assunção Cristas. Mas a longa entrevista que deu ao “Público”, essencialmente preenchida com um “não tenho nada com isso, eu até ía a caminho da missa”, sobre o passado, o PSD e Marcelo, não ajudou à festa. Foi uma tentativa de fuga para a frente, que acabou por ter o amargo sabor de quem assobia para o lado.

É exemplar (no pior sentido) o estado em que está a oposição, e de como tal facto é meio-caminho andado para surgir quem, à direita, saiba aprender os efeitos do vazio. Não augura nada de bom. E isto, sim, é o pântano em todo o seu esplendor.

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