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Pedro Rolo Duarte

19
Nov15

Guerra em tempo de paz

(Crónica publicada nesta manhã de quinta feira na plataforma Sapo24)

Ontem à noite, enquanto na televisão se mostravam as imagens dos tiroteios em Saint-Denis, e se descrevia a meticulosidade com que os militares franceses foram directos à casa de quem sabiam que tinha qualquer coisa a ver com os ataques de sexta-feira passada (não foi por acaso, certamente, que uma mulher se fez explodir no apartamento cercado…), na tasca onde via aquele Telejornal havia uma voz que se levantava em revolta e dizia:
- Não percebo isto! Os gajos sabem onde estão os terroristas, mas em vez de lá irem antes, vão só depois dos atentados matarem umas dezenas…
O desabafo originou discussão - e como de costume, em todos nós há, além de um treinador da selecção nacional de futebol, um primeiro-ministro e um chefe de polícia. Neste caso foi o chefe de policia que veio ao de cima e deu para um debate onde, no limite, as autoridades prendiam todos os muçulmanos que encontrassem na rua - e depois iam-nos libertando à medida que provassem serem inocentes. Tudo ao contrário do que o nosso estado de Direito manda. Enfim, conversa de tasca…
Mas, mais a sério, vale a pena reflectir sobre as estratégias que têm sido aplicadas no combate - muitas vezes, tardia e infelizmente, já só na resposta… - a um novo patamar do terrorismo radical islâmico. É que este novo degrau na escalada do terror distingue-se pelo seu lado aleatório, pelo medo imposto pela incerteza, e por uma (provavelmente organizada) desorganização. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui a dez minutos - e é com essa venda nos nossos olhos que os terroristas contam. Eles querem-nos vencer pelo medo e pela insegurança. E numa primeira fase estão a conseguir - nem que seja por esta reacção de rua que pede sangue antes, ou em vez, de pedir justiça.
Todos sabemos que por cada ataque terrorista bem sucedido há muitos outros que as autoridades conseguem fazer abortar. Nessa medida, pôr em causa o trabalho dos serviços secretos e das forças de segurança, seja qual for o país ou a organização, pode ser tentador, mas não faz sentido. Mas talvez seja razoável seguir os passos firmes de François Hollande e aceitar que efectivamente “estamos em guerra”, e que as regras da guerra são bem diferentes daqueles que dominam a vida em paz democrática, mesmo sob ameaças potenciais. Estar em guerra não é matar a torto e a direito - mas é defender territórios, criar linhas de defesa, atacar com precisão. É responder ao medo sem medo. No limite, até sem medo de errar.
Politicamente incorrecto me confesso - mas é humanamente impossível, a quem assistiu aos últimos 14 anos da vida no Ocidente, pensar de outra forma. Se é para vencer, às vezes vamos enganar-nos. Tomemos isso como parte integrante desta guerra. Quer queiramos, quer não, ainda há um lado certo da vida. E é este.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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