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Pedro Rolo Duarte

06
Jan16

Há 10 anos, neste dia, saiu o último DNA

dna 1.jpg

dna 2.jpg

(Com esta capa dupla, reproduzindo o bebé da capa do número 1 - e o mesmo “bebé”, agora com dez anos…
A direcção de António José Teixeira achou que estava esgotado o tempo deste suplemento.

Sempre entendi que um suplemento de um jornal não é o jornal em si, pode durar uma semana ou uma dúzia de anos. Atingir o décimo ano foi, para mim, uma surpresa e uma honra. Só me cabia estar grato por tanto tempo de vida. E despedir-me dos leitores da melhor maneira. Foi isto que escrevi para essa edição final, sob o título "Os olhos espantados de um bebé"…)

 

“No começo, eram os olhos espantados de um bebé. Os olhos maravilhados, curiosos, os olhos com perguntas que não esperam respostas, mas apenas revelações. Eram aqueles olhos ingénuos e puros que a designer norte-americana Edith Stone me pedia insistentemente num castelhano semelhante ao meu, ou seja, pouco mais que sofrível. “Pedro, una pergunta...” – e depois desta frase vinha sempre um pedido difícil, discutível, muitas vezes irresistível. Perdíamos horas a observar um pormenor, ou a diferença entre um pormenor e outro. No fim, invariavelmente, riamo-nos – porque estávamos de acordo, mesmo quando o meu orçamento limitava o nosso objectivo.
Já lhe tinha dado dezenas de fotografias para a capa do número zero do DNA. Dizia ela: “Pedro, una pergunta...”. Até que um dia não disse. Tinha os olhos espantados do bebé. Tinha na mão a chave do nosso trabalho conjunto de meses. Tinha a resposta. A resposta era... a pergunta dos olhos espantados do bebé. A resposta era o verbo – “Nascer” – e algo que ambos sabíamos o que era. Só não sabíamos bem como dizer. Usávamos uma palavra inexistente – “impactante” – e uma ideia absurda que alimento desde que me meti nesta vida: os nossos leitores só gostarão daquilo que nós gostaríamos se fossemos leitores como eles.
E foi assim.
E é assim.
No começo, como no final, os olhos espantados do bebé inspiraram milhares de páginas de jornal. Eles foram, a um tempo, o desafio da pergunta e a satisfação da resposta; a ingenuidade dos começos e a sabedoria inerente à humildade; a curiosidade infantil e a discrição do bom senso. Esses olhos vigiaram-nos e tomaram conta de nós, constituíram luz e sombra, foram críticos, entusiastas, colocaram-nos em causa e souberam agarrar-nos a causas.
... Esses olhos cresceram connosco. E hoje, no dia em que fechamos este bocado das nossas vidas, e damos por cumprida a missão que nos foi incumbida por Mário Bettencourt Resendes (então director do DN) e Edson Athayde (então administrador), é para esses olhos que volto a olhar – os mesmos, nove anos depois.
O que vejo?
Vejo um olhar mais seguro, menos espantado. Ainda assim inquieto. Vejo através desses olhos o olhar da Carmo Aragão de Barros quando, nos momentos mais desabridos do DNA, lançava a sua frase fatal – “à vontade não é à vontadinha!”. Vejo a Sónia Morais Santos a desafiar-se a si própria num texto arrebatador que me deixa um nó na garganta (desato-o com a hora tardia a que entrega, e com isso alivio uma comoção que não me dá jeito nenhum neste instante). Vejo o Luís Osório a delirar com uma ideia impossível que ele depois concretiza como se fosse com uma perna às costas. Vejo o Augusto Brázio a propor-me uma fotoreportagem feita mil vezes e, com o seu olhar misterioso, prometer uma nova abordagem – e cumprir, surpreendendo-me com o ângulo que jamais vi. Vejo a Catarina Vasques tratar de cada DNA como se fosse mais um filho seu. Vejo o Nuno, o Hugo, o LSD, o Miguel, a Maria, a Inês, o Marcelo, a Fátima (sim, é minha irmã), o COS, o MEC, o Quevedo, o Nuno, a Carla, o Jorge Nogueira, a Rita (sim, a Rititi), o Eduardo Barroso, o João Ribeiro, a Cristina, a Cláudia Clemente, o José Mário Silva, o João Gobern, a Margarida Marinho, o Pedro Mexia, o Francisco José Viegas, a Ana Marques Gastão, o João Céu e Silva, o Leonídio, vejo, vejo, vejo... Eu vejo tanta gente -  e em cada um vejo aquele olhar espantado do bebé. E é esse olhar que hoje me espanta e me inquieta outra vez.
São três da manhã do dia 30 de Dezembro. Cabe-me fechar o DNA com a mesma dignidade e amor com que tive o privilégio de o conceber e “abrir”. Não quero lágrimas nem choros – porque sei bem que um suplemento de jornal não é mais do que isso mesmo: um suplemento, um complemento. Mas também não quero passar ao lado de tudo o que significou para dezenas de pessoas que o concretizaram, nem ao lado de um número recorde de prémios de todos os géneros. Fecho a porta mas ponho as medalhas do lado de fora.
E volto ao começo de tudo: os olhos espantados de um bebé. Só vale a pena viver a vida assim. Essa é a lição que fica de tudo o que nestes anos vivemos”.

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