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Pedro Rolo Duarte

12
Set16

Memória breve de ruína em ruína

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Só fui casado, até agora, uma vez. Por isso, a separação e o consequente divórcio foram, como o casamento e a paternidade, factos relevantes na minha vida. Tudo se passou entre o final do século XX e 2001.
Passados tantos anos, a vida encarregou-se de hierarquizar os factos, e o que ficou de tudo isto - relevante, marcante, eterno, e felizmente o maior motivo de orgulho que posso ostentar - foi mesmo a paternidade. Ou melhor: o António Maria que daí resultou. O melhor que fiz na vida (sem esquecer que é filho de pai e mãe, e sabendo que muita gente contribuiu para este resultado, dos professores aos amigos, da família aos médicos).
Dito isto, a agenda: no dia 11 de Setembro de 2001 ía discutir, civilizadamente, com a mãe do meu filho, a já incontornável separação,. Estávamos de férias, no Alentejo. Combinámos conversar à noite, depois do filho adormecer, e mantivemos a rotina de sempre. A caminho da praia do Carvalhal (o da Zambujeira…), recebo uma sms incompreensível da Carmo Aragão Barros, meu braço direito na vida, que falava de um avião que tinha caído em Nova Iorque. Havia a limitação dos caracteres nas sms e não percebi a relevância da mensagem, dado que aparentemente não mudaria nada naquele dia, numa fase em que dirigia um suplemento semanal, de fim‑de‑semana, no Diário de Notícias, e estava de férias…
Ainda assim, e depois de, no bar da praia, ouvir os primeiros especiais da Antena 1 (não é propaganda, é verdade!), achei que devia voltar para casa e ligar a TV. Estava um dia cinzento na praia, o que ajudou.
À medida que nos apercebemos da gravidade do que se estava a passar, adiámos a conversa sobre a separação para o dia seguinte, decidimos que as férias terminavam ali -  e expliquei, o melhor que pude, a um miúdo de 5 anos, porque tínhamos de voltar para Lisboa rapidamente.
Assim aconteceu. No dia 12, acabou o meu casamento.
Algumas semanas mais tarde, a praia da minha vida morria, porque o excesso de zelo e a partidarite autárquica mandaram destruir o bar da Maria da Luz, seguramente o melhor bar de praia que alguma vez se fez em Portugal. Com isso comecei o processo de “divórcio” daquela zona do Alentejo.
Comecei a admitir que talvez não haja mesmo coincidências.
E assim, nesse Outono de 2001, acordei para a realidade, depois de muitos anos em que tudo, mesmo tudo, foi possível. Nunca mais nada foi o mesmo. No mais pequeno dos meus círculos, e no circulo maior que é o Globo. Até hoje. Passaram 15 anos.
Foi como se um qualquer deus existisse e dissesse: vá lá um balde de água fria em cima dessa gente toda. Eles estão a precisar.
A pergunta persiste: estávamos?
(… ou não houve quem atirasse o balde?)

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