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Pedro Rolo Duarte

07
Mai17

Mitos urbanos

Já não sei quando e como ouvi falar, e muito bem, da “Focacceria Pugliese”, mas por isso mesmo não demorei a ir até Campo de Ourique, de propósito, para provar as focaccias largamente elogiadas. Na altura a prometida casa funcionava, se não erro, num discreto espaço da Rua 4 de Infantaria. Tenho a certeza de ter lá ido pelo menos três vezes - e de ter sido mal sucedido, batendo com o nariz na porta. Estava sempre fechada, ainda que o horário anunciado garantisse que estaria aberta, e mesmo depois de uma reclamação na plataforma Zomato (que foi apagada sob a alegação de que não estava a opinar sobre o serviço ou qualidade do estabelecimento – o que seria verdade, não se desse o caso de não ter conseguido sequer experimentá-lo...). Quando desabafei a irritação com clientes amigos dos donos, justificaram tal facto com momentos menos bons que os proprietários atravessavam, ou com falta de pontaria da minha parte. Argumentos pouco aceitáveis, ainda assim plausíveis.

Passado pelo menos um ano sobre a ultima tentativa, verifico que a “Focacceria Pugliese” mudou de lugar e está agora num espaço ampliado, mais central, ainda em Campo de Ourique, na esquina da Tomás da Anunciação com a Coelho da Rocha, e exibe na porta um horário contínuo ao longo do dia. Sabendo da evolução, decidi voltar a tentar a minha sorte. E a meio de uma tarde de sábado, com o bairro de Campo de Ourique bem acordado, lá fui à “Focacceria Pugliese” tentar provar uma (presumivelmente maravilhosa) focaccia.

Pois bem. Apesar do anuncio de serviço contínuo, a recepção foi clara, nas palavras de um funcionário que falava um português dourado a italiano: só havia as focaccias que estavam na montra, duas ou três modalidades, já feitas há algum tempo, a hipóteses de algumas pizzas, mas mais nada do que a ementa prometia. Saladas, perguntei? Agora, não. E podemos sentar-nos? “Melhor aqui na colectiva mesa/balcão da entrada, que a sala não está pronta”.

Lá virei costas, uma vez mais, e vim embora. O horário contínuo era, afinal, uma tanga, e a forma como me foi apresentado um espaço em “modo serviço mínimo” foi desanimador, para não dizer enganador.

Saí de Campo de Ourique para um daqueles lugares seguros, onde os horários se cumprem e os serviços são garantidos, pensando na improbabilidade de algum dia chegar a provar as focaccias da “Focacceria Pugliese”. Não por falta de vontade, ou de tentativas – mas por ter entrado na lista dos mitos urbanos que fazem de Lisboa uma cidade tão deslumbrante quanto irritante.

Aquela casa é um capricho de quem a abriu, e uma sorte para quem sobre ela pode falar. Mas um nome a esquecer para quem acredita nas tabuletas das portas, e tem do serviço ao público a ideia de algo mais do que uma loja que se abre, porque é giro e não temos mais que fazer.

É nestes momentos que percebo por que motivo as empresas organizadas e profissionais sobrevivem e crescem na selva da restauração nacional, mesmo que isso nos custe perder alguma espontaneidade, autenticidade, e até a verdade que nos distingue. Não há nada que resista à desilusão de nos prometerem o que não cumprem.

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Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

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