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Pedro Rolo Duarte

03
Set15

Nascer igual, mas noutro lugar

A imagem que ontem correu o mundo, e que foi muito bem enquadrada aqui, no britânico The Independent (e no Público de hoje), choca e comove, mas não nos pode surpreender: há tempos que os noticiários estão cheios de informação que traduz ou retrata esta realidade, agora vista de forma ainda mais chocante do que é costume. Há números de milhares de mortos, de milhares de retidos, de milhares de pessoas que tentam fugir à guerra, à violência, à ditadura, ou “apenas” à miséria.
Não seriam necessárias imagens para acordar a Europa para este flagelo - e acima de tudo, para a urgência em encontrar soluções para o resolver. Nas conversas que tenho tido sobre o tema, há sempre um momento de beco sem saída: se a Europa não consegue resolver boa parte dos seus problemas de emprego, de desenvolvimento, de solidariedade interna, como pode acolher este êxodo em massa de refugiados (lamento, mas não adopto a palavra da moda, “migrantes”…)? E como podemos garantir que não vamos criar novos guetos onde vão multiplicar-se crises e renovados conflitos, e onde esta gente vai viver igualmente infeliz e revoltada?
Não tenho, nem sei quem tenha, respostas para estas perguntas. Ou soluções milagrosas que façam nascer flores onde agora morrem pessoas. Mas sei uma coisa simples: não aceito ver os meus semelhantes - refugiados ou fugidos ou sonhadores ou apenas indigentes, não me interessa -, recambiados, rejeitados, desprezados, por seres humanos seus semelhantes, os tais que “nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. Os tais que “dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Pessoas como nós. Cuja única diferença foi terem nascido noutro lugar.
A Europa solidária, livre, fraterna, democrática, está enredada nas suas pequenas misérias, na corrupção em que tropeça todos os dias, e preocupada em salvar a face da sua miserável economia - e parece não ter aprendido a lição de duas grandes guerras e de crises e momentos dramáticos que levaram no passado, por exemplo, os irlandeses à América, ou os portugueses a França. Temos memória curta.
E eu tenho vergonha de viver numa sociedade assim.

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