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Pedro Rolo Duarte

18
Jan14

No baú

Uma pessoa procura uma coisa e encontra outra. No disco onde se guardam os textos do passado, uma crónica publicada na revista Visão em Março de 1998. Há quase 16 anos. Sobre jornalismo - mas basicamentre, sobre o presente que então era uma hipótese de futuro. E aqui fica, para memória futura, e pensando que sim, que já era tempo do jornalismo voltar a encontrar-se em Congresso...

 

"No original, o pequeno livro, pouco mais de cem páginas, chama-se «Cartas a un joven periodista». O tradutor português, bem intencionado, chamou-lhe «Cartas a um jovem jornalista». Esqueceu-se apenas que os jovens espanhóis são, como se verificará adiante, os adultos portugueses. Este caderninho de Juan Luís Cebrián, fundador e ex-director do diário «El País», e actualmente nos cargos directivos da empresa que o edita, deveria ter sido lido, no último fim de semana, na tribuna do 3º Congresso dos Jornalistas. Tem ensinamentos, ideias, experiências, da vida de um grande obreiro do jornalismo europeu, escritos de forma directa, simples, sob a forma de cartas a um jovem candidato à profissão. O conteúdo prova-nos que as cartas são para todos – e em Portugal são especialmente dedicadas aos mais credenciados profissionais.
Ao longo do livro, Cebrián desmonta com elegância o sentido missionário que muitos querem dar à profissão de jornalista: «O jornalista não é um professor nem um sacerdote, é apenas um contador de histórias, um bobo moderno, como dizia Mark Twain, e até um bufão, se for necessário». Mais à frente, sobre aqueles que, ainda assim, estão «convencidos de que estão chamados para a maior missão que imaginar se possa», vai avisando: «não têm vocação de jornalistas, mas de sacerdotes, políticos ou juízes. Não querem contar as coisas, mas explicar a sua concepção do mundo – o que já é competir com os filósofos».
Apesar de reconhecer a importância da formação, Juan Luis Cebrián despreza a ditadura da carteira profissional: «Falar é um privilégio de todo o cidadão livre, não de uma casta social ou profissional constituída por jornalistas, ostentadores de uma carteira profissional ou de um diploma. A liberdade de expressão não é nossa, mas dos nossos leitores. Bastante é que se saibamos geri-la com prudência, sem rudeza, sem medo».
Vai mais longe e sabe encontrar as virtudes e os perigos da relação entre publicidade e jornalismo, entre profissionais e grupos empresariais que detém órgãos de informação, entre patrões e trabalhadores. E, finalmente, fala do futuro – do mesmo futuro que passou tão ao lado do encontro magno dos profissionais: «Em relativamente pouco tempo, os leitores e assinantes vão ter acesso às mesmas bases de dados que utilizam os redactores dos jornais. Em certa medida, vão ser eles também jornalistas ao mesmo tempo que leitores, vão poder participar activamente na busca e ordenação das informações que lhes interessem. E o nosso papel será facilitar-lhes a tarefa de que apliquem o seu próprio critério, e não tratar de o suplantar».
No Congresso dos Jornalistas, só me passou pela cabeça intervir para ler bocados destes textos do fundador do «El País». O livro está à venda, não preciso de «suplantar» a capacidade de busca dos meus pares. Mas confesso que, no que às questões substanciais desta profissão diria respeito, o encontro ficou longe do que esperava. Viveu de ressentimentos e de fantasmas, de receios infundados e preconceitos ultrapassados, de pormenores e princípios programáticos que o tempo se encarregará de esquecer.
Se assim aconteceu, a responsabilidade não pode ser imputada a quem o organizou – que, ao contrário do que sucedeu no passado, fez questão de abrir o encontro até ao limite, de deixar a porta aberta a todas as correntes, a todas as ideias. Mas o excesso de abertura resultou em dispersão – e da dispersão não saiu a luz.
Preferia, por isso, chamar-lhe, em vez de Congresso, «pré-Congresso». Reabriu-se o diálogo, abriu-se a porta a toda a gente que se move neste meio. Foi, ao contrário do que os críticos do costume quiseram fazer crer, um excelente ponto de partida. Agora é altura de organizar um congresso profissional para profissionais. Um congresso mesmo"

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Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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