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Pedro Rolo Duarte

12
Jun14

Notícias do pântano

A notícia, seca e fria, era assim: “A Controlinveste Conteúdos, empresa detentora dos títulos DN, JN, TSF e O JOGO, entre outros, anunciou hoje um processo de redução de efectivos no total de 160 postos de trabalho, soma de um despedimento coletivo de 140 colaboradores e de um conjunto de rescisões amigáveis que abrangem mais 20”.
Há muito que se falava desta possibilidade, há muito que se percebera que seriam os trabalhadores a pagar o preço de uma gestão laça, muitas vezes incompetente, na maioria dos casos apenas ignorante. Quando falo de gestão falo também, sem medo, na direcção dos principais títulos do grupo. A crise não justifica nem desculpa tudo.
Não desculpa, por exemplo, a descaracterização de um titulo como o Diário de Notícias, que deixou de ser jornal de referência para não ser nem isso nem o seu contrário. Popular? Tabloíde? Conforme os dias. Falo com conhecimento de causa. O DN foi o jornal a que estive ligado mais anos consecutivos: fui colaborador-estagiário, colunista, director (do DNA, que criei de raiz), e cheguei a pertencer a uma direcção do jornal - ininterruptamente, ao longo de 20 anos, de 1986 (comecei por escrever sobre musica no suplemento de sábado) a 2006 (quando o DNA acabou), fui um leal colaborador daquelas páginas, e vibrei com a remodelação de 1996, que disparou as vendas do jornal para números acima dos 60000, e ambição para mais, como voltei a acreditar na mudança que tentámos fazer em 2005, na direcção de Miguel Coutinho e Raul Vaz, a que tive o privilégio de pertencer. O DN sempre foi um jornal velho que se soube renovar - e esse foi também o segredo da sua longevidade -, e agora tornou-se um jornal velho que não se renovou nem soube continuar a envelhecer. Perdeu-se algures entra a ilusão de agradar a todos e o desespero de vendas abaixo dos 15000 exemplares diários.
Uma coisa é a crise da imprensa e o fim anunciado dos jornais diários em papel - sobre isso, não tenho grandes duvidas. Outra coisa é não olhar de frente o olho do furacão e tentar dar a volta, “errando cada vez melhor” (como está a fazer o “Expresso” ou o “Público”, mesmo que sem o sucesso esperado, pelo menos imediato), reinventando o negócio, usando o papel na sua dimensão exclusiva e o online como megafone de marcas e produtos, ou fazendo opções de fundo radicais e consistentes, mesmo que arriscadas, como sempre defendi.
O DN teve  oportunidade, integrado num grupo de razoável dimensão, de voltar a renovar-se sem perder a idade - mas não soube fazê-lo. Ou não quis. Ou pura e simplesmente desistiu. Os leitores sabem ler estes estados de alma - talvez por isso, desistiram também.
Este anuncio de despedimentos em massa tem uma mensagem implícita: os títulos podem permanecer no mercado, mas tudo vai mudar- dos conteúdos ao negócio, da forma de produzir jornalismo aos objectivos a alcançar -, e não se adivinha uma estratégia ou uma ideia que nos faça acreditar que a mudança melhorará o quadro geral. Sem ideias, sem pessoas, só com máquinas de calcular, podem fazer-se sabonetes - mas não se fazem jornais e revistas e rádios e televisões.
Se falo apenas do DN é porque me toca no coração, porque vivi naquele jornal alguns dos momentos mais fortes da minha vida profissional (e até pessoal: falhei uma única vez a entrega de uma crónica, no dia em que o meu filho nasceu…), e porque me doeu a forma como perdeu identidade e personalidade nos últimos anos.
Como de costume nestes casos, os 160 despedidos são o clássico mexilhão que se lixa. Aqueles que nestes anos contribuíram para delapidar o património material e imaterial do DN flutuam tranquilamente no pântano que criaram.

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