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Pedro Rolo Duarte

10
Dez15

Nuvens sobre o clima

(Crónica de hoje na plataforma Sapo24)

Estamos a atingir um ponto limite de desconfiança sobre a raça humana. Até o jornalismo perdeu a sua maior arma: a credibilidade. Ninguém acredita em ninguém, números e factos são sempre contraditados com perguntas e dúvidas, e o óbvio tornou-se duvidoso.
O debate aberto pela cimeira do clima é um bom exemplo. É verdade - porque se vê, não porque se diga… - que o degelo prova algumas teorias mais alarmistas. Cito uma notícia da SIC: “As imagens de helicóptero do maior dos glaciares do Monte Branco são raras e despertam para uma realidade dos nossos dias. Entre 2003 e 2012, o mar do gelo perdeu 4 a 5 metros”. As imagens deste acelerado degelo não têm contraditório possível e não auguram nada de bom - mas, ao mesmo tempo, e enquanto isto acontece, há vozes aparentemente credíveis que levantam dúvidas e nos deixam a pulga atrás da orelha. Philippe Verdier, que nos últimos 20 anos deu a cara pela departamento meteorológico da cadeia de TV France-2, foi despedido no momento em que decidiu escrever e publicar um livro (“Climat Investigation”), em que procurou o outro lado dos efeitos do aquecimento do planeta. No que respeita à França, Verdier contabilizou a poupança energética que o aumento da temperatura permitiu, bem como o aumento da produção de alguns cereais, a diminuição do numero de óbitos em consequência da gripe, e não teve medo de denunciar a sempre delicada ligação entre os investigadores e os “lobbies” económicos ligados ao negócio da ecologia e do ambiente.
Não é a primeira voz a alertar para este outro lado negro de uma situação que nos devia unir, e nunca dividir. Já houve cientistas que lembraram a impossibilidade de prever o futuro de uma natureza que, por si, é imprevisível - e tem demonstrado ao longo de milhões de anos que pode sempre mudar o curso dos acontecimentos quando menos se espera, seja num tsunami ou no acordar de um vulcão.
Numa pesquisa simples na Internet, podemos encontrar James Lovelock, 88 anos, um dos mais influentes cientistas do nosso tempo, afirmar peremptoriamente que a raça humana está condenada: até 2020 a seca será assunto do dia, “o Saara vai invadir a Europa, e Berlim será tão quente quanto Bagdad”. Ele prevê que, até 2100, a população do planeta encolha de 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões. Mas ao lado, na mesma busca, encontramos o meteorologista brasileiro Luiz Carlos Molion, com mais de 40 anos de trabalho desenvolvido, assegurar que o aquecimento global não constitui qualquer drama para o planeta. E vai mais longe: “o problema é que quem não é a favor do aquecimento global sofre retaliações, têm seus projetos reprovados e seus artigos não são aceites para publicação. E eles (os governos) estão prejudicando a Nação, a sociedade, e não a minha pessoa”…
Há qualquer coisa perto da paranóia nesta sensação de insegurança, de chão a fugir-nos debaixo dos pés. Desconfiamos de tudo e de todos.
Em quem acreditar? Quem seguir? O que fazer? A intuição é suficiente?
Não tenho resposta para qualquer destas perguntas. Mas tenho uma certeza: nunca, como hoje, foi tão difícil acreditar no que nos dizem. E isso preocupa-me tanto ou mais do que o estado do ambiente na Terra.

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