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Pedro Rolo Duarte

25
Jun16

O dia de todas as decisões

(Crónica de quinta-feira passada, na plataforma Sapo24. De propósito, só hoje a partilho aqui...)


Hoje é o dia. Hoje vamos saber se a Grã-Bretanha vai fazer desmoronar a União Europeia - ou se, não a desfazendo, a vai deixar ferida, enquanto o país recupera da explosão programada que criou no reino de vários reinos…
As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.
Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta “união”, um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o “adepto” e o “sócio”. Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: “This project has been part-financed by the European Community”…
… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.
O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.
Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

 

(Agora, que já sabemos o desfecho desta novela, resta lamentar a decisão de uma escassa maioria, que provavelmente não viverá o suficiente para sofrer as consequências da noite escura que criou... Ao mesmo tempo, abriu sem querer um dossier que há muito os europeus reclamam: o que confronta a Europa que os cidadãos querem - e a maioria, estou convencido, quer mesmo... - com a Europa que os políticos têm criado e alimentado. São diferentes, parece claro.)

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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