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Pedro Rolo Duarte

29
Abr17

O livro aberto, o livre arbítrio

(Quinta que passou, no Sapo24)

 Li por estes dias “O Imenso Adeus”, de Raymond Chandler, um dos clássicos que tinha falhado, e para o qual a reedição da colecção “Vampiro” (renovada e recriada...), me acordou. Em boa hora e por menos de dez euros...

Foi no meio dessa leitura – que tem tanto de policial quanto de poética... -, que soube, pela imprensa espanhola, que os nossos vizinhos estão a recuperar bem da crise do universo editorial, voltando a números de vendas de 2008. O que me chamou a atenção foi o titulo da matéria do El Mundo: “Se Espanha tivesse 100 livros... 75 seriam em papel”. O pretexto era o Dia de San Jordi, que em Barcelona é “recheado” a livros e rosas, transformando a cidade na mais romântica e bonita do planeta - e além dessa boa nova de recuperação económica, junta-se-lhe o facto da edição em papel não sofrer grandemente com os livros digitais e os kindle’s e outros eBooks desta vida. Gosto disso. Como militante do papel, em todas as suas frentes, não leio em ecrã mais do que a profissão me exige, ou o mercado me obriga, e espero que resista com saúde no que lhe resta viável: livros, revistas, publicações que escapem à voragem dos dias. Da mesma forma que reconheço, com tristeza, a efectiva falência do jornal diário em papel – tão anacrónico como o pão de ontem -, não deixo por mãos alheias o prazer de uma revista impressa, um artigo longo que se lê devagar, às vezes em dias seguidos, numa esplanada, sem falta de bateria nem riscos no ecrã. Ou a superior impressão de uma fotografia do nosso mais querido autor.

As notícias do mercado espanhol inspiram, mas é área em que podemos responder à altura. Sem saber dos números mais actuais (ainda que seja claro e oficial que, nos últimos 30 anos, foi de quase 200% o aumento do numero de livros publicados em Portugal!), parece evidente que este é seguramente o mais dinâmico dos sectores da cultura nacional, com um generoso numero de editoras a publicar dezenas de livros por semana, mesmo com tiragens pequenas. Os queixumes são os de sempre, mas a verdade é que o preço de editar um livro, entre nós, é baixo, o que torna a margem de risco editorial aceitável, e razoável a convivência entre os grandes editores, conglomerados de chancelas já existentes, e os pequenos independentes.

O livro foi, para o bem e para o mal, dessacralizado. Há quem veja nisso um crime de lesa-cultura, traduzido na frase “qualquer bicho-careta publica em livro” – mas confesso que, ainda que também me façam confusão algumas edições, que juntam receitas de beleza à base de frutas e enchidos, ou conselhos sobre criação de tartarugas e outros animais anfíbios, prefiro um mercado que tem espaço para todos, do que aquele que conheci, quando comecei a trabalhar, dominado por meia-duzia de editores que decidiam o que merecia ser editado, e nessa decisão deixavam de fora muitas das que seriam, então, as revelações que faziam falta.

Hoje, não há quem não tenha oportunidade de publicar, há livros para todos os gostos, graus de exigência, níveis de conhecimento. Ler já não é um verbo de elite – e por mais que me incomodem alguns títulos, algumas abordagens, alguns aproveitamentos de fenómenos de moda e popularidade, prefiro este caos editorial (que leva, no limite, à injustiça de termos edições que estão poucas semanas disponíveis, dada a escassez de espaço para armazenar stocks), à plutocracia cultural que durante dezenas de anos dominou a edição.

O prazer de ler um policial de Chandler, ao lado de uma revelação do Prémio Leya e de um livro de receitas de ceviches, é um dos melhores dados sobre o estado da Nação. Que bom, por instantes, poder ser optimista e acreditar neste “nosso Portugal”, sem cair na tentação da frase banal: “se fosse lá fora...”. Cá dentro, neste caso, é que é.

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