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Pedro Rolo Duarte

01
Abr14

O meu mundo e o dos outros

(Ponto prévio: parabéns à Fátima Campos Ferreira por dedicar um “Prós e Contras” ao “Amor em tempo de Crise”. Gosto de uma televisão que ousa e arrisca - e foi isso que a Fátima fez ontem. A isso chamo Serviço Público de Televisão.)

 

… Agora o resto: ainda que se tenha falado pouco do amor no tempo da crise, falou-se muito de amor, de sexo, de relações. E eu ouvi, sobre o tema, talvez a maior colecção de lugares-comuns que jamais ouvira num tão curto espaço de tempo, dos escritores aos médicos, dos bloguers aos psicólogos. Aprendi zero - ou melhor, percebi que vivo num mundo diferente e bem melhor do que o mundo destes senhores e senhoras, rapazes e raparigas.
No mundo onde eu vivo o amor vive-se, o sexo é a dois, a paixão não tem prazo, as relações não têm regras, o “mapa do corpo” é descoberto a dois, a fantasia faz parte da relação, há espaço para os fetiches, as descobertas, as manias de cada um. Essa é a minha história, e dado que não a faço sozinho, é também a das pessoas que conheci.
No mundo onde eu vivo, e fora do qual não mergulho, o sexo não é bom nem mau - é como o tango, dança-se a dois, e às vezes sou o melhor do mundo, e outras vezes sou o pior.
No mundo onde eu vivo não se dramatiza a eternidade nem as relações que falham, como não se idolatram os casamentos que duram sem que vivam, ou que vivam mesmo depois de morrerem.
No mundo onde eu vivo, os papeis masculinos e femininos não estão assim tão taxativamente escritos como oiço dizer neste programa.
No mundo onde eu vivo, não nos levamos tão a sério ao ponto de definir o que procura quem lê um blog pessoal. Eu não faço a mais pálida ideia do que procura quem me lê - nem ouso ter a soberba e a pretensão de me achar a ultima coca-cola do deserto e descrever num programa de televisão de que “raça” são os meus leitores. Tristeza.
Por fim: no mundo onde eu vivo, não há livros de instruções sobre o amor. E o que eu vi foi uma série de pessoas a debitar partes de um livro de instruções, algures entre um coleccionável de auto-ajuda e um idiota romance cor-de-rosa. Lugares-comuns, sem margem para duvida. Estou quase a concordar com a minha amiga Rita Graña, que há anos me diz: “vence na vida quem ridiculamente se leva a sério, não quem sabiamente se ri de si próprio”.
De uma vez por todas, como a Rita, também eu devo andar no lado errado do passeio.

 

(Já agora: a foto tirei-a numa parede junto à Central Station e foi pintada certamente por alguém que acredita que isto do amor não é tudo legislado e regrado por quem aparece na TV)

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