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Pedro Rolo Duarte

25
Fev15

O ouvido entupido

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês saiu hoje e está em grande...)

Quando comecei a trabalhar na rádio chamavam-se simplesmente “auscultadores”. Eram grandes, gordos, pesados, e não usarmos os que estavam dentro dos estúdios traduzia empenho mas também alguma vaidade. Empenho, porque significava que tínhamos gasto dinheiro a comprar uns auscultadores pessoais, e que tínhamos gosto em ouvir o som com a qualidade que o nosso investimento permitia - e vaidade porque estávamos “armados em bons” a fazer mais do que nos era pedido. Que era apenas anunciar os discos e passá-los.
Depois apareceu o “Walkman” e com ele os “headphones”. E mais tarde o “iPod”. Rapidamente, tudo mudou: a correr, a andar, a passear, no metro, no comboio, em todo o lado as pessoas ouvem musica. Escolhem as suas canções, a sua rádio, as listas e sequências preferidas, e ouvem, ouvem, ouvem. Ouvem sem ouvir mais nada à volta. Para o fazer, isolam-se num casulo a que hoje chamamos apenas “fones”, assim mesmo, com “f”, cápsulas que enfiamos nos ouvidos ou auscultadores na versão suave, leve, e de alta qualidade.
Nos escritórios as pessoas trabalham com “aquilo” nos ouvidos, em casa há familias que não se ouvem porque cada uma anda com o seu som pessoal enfiado na orelha.
Devo estar, mais do que velho, acabado: não consigo viver com auscultadores na cabeça. Claro que os utilizo na rádio, claro que preciso deles quando quero escolher musica e estou entre pessoas que, num espaço partilhado, os outros não têm de levar com as minhas pesquisas. Mas fora a utilização profissional, incomoda-me a ideia de ter nos ouvidos algo que me afasta do mundo à minha volta, que me “desliga” da realidade sonora, e que no limite pode impedir-me de ouvir a buzina do carro que ameaça atropelar-me.
Esta democratização total dos “fones” - não há telefone comprado que não ofereça um par de coisas daquelas - torna-nos não apenas surdos, mas acima de tudo ainda mais solitários, sozinhos, num mundo fechado onde só nós próprios cabemos. Deixámos de ouvir os sons do mundo que nos rodeia, deixámos de ouvir as queixas da vizinha do lado no metro, deixámos de ouvir a vida - para ouvirmos apenas o que escolhemos e nos embala, nos faz sonhar, nos leva ao colo, ou nos deixa entregues a terceiros.
Às vezes, no local onde habitualmente trabalho, e onde mais gente trabalha num sistema saudável de coworking, preciso de usar os auscultadores. Sempre que o faço, há um sentimento incómodo que se apodera de mim: parece que tenho um sentido a menos. Como se me faltasse algo essencial, sei lá, o cheiro, o sabor, o olhar. Não ouvir o que me rodeia é um pouco como ter o nariz entupido - com a vantagem de ter musica escolhida para ouvir, e a desvantagem de não ter razão para ter o nariz entupido.
Pode ser, será seguramente, um sinal dos tempos. Mas os ouvidos “entupidos” por uns “fones”, por melhor que seja a musica escolhida, parece-me sempre um paradoxo do tempo. Nem que seja pela razão essencial: quando descubro uma canção de que gosto, o que mais quero é partilhá-la com quem me rodeia. Se a oiço sozinho, no meu casulo, na minha capsula, no meu compartimento, estou a negar-me e a contradizer-me. Não nasci para essa solidão asfixiante. Será por isso que persisto em chamar à rádio o “grande amor” e não me passar o “bichinho” que todos os que por ela passam dizem também senti-lo? Ou estarei a viver num passado onde não faz mais sentido a pergunta “queres ouvir?”?

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