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Pedro Rolo Duarte

01
Mar16

O Pap’Açorda

Foi há mais de 30 anos, e pelos vistos há menos de 35. A minha namorada da época tinha um amigo, actor, mais velho, frequentador das noites, que sabia onde se devia ir, onde se comia bem, onde estava o começo do que viria a ser o esplendor dos anos 80 no Bairro Alto. Nós tínhamos menos de 20 anos. Uma noite ele levou-nos àquele que, dizia, era o melhor restaurante de Lisboa. Tinha aberto há pouco tempo. Chamava-se “Pap’Açorda”.
Lembro-me de ficar maravilhado com a excelência do serviço, a qualidade dos pratos, e um ambiente que, ao longo da noite, foi evoluindo quase para uma pequena festa de amigos. Adorei.
Já começava a trabalhar mas não ganhava o suficiente para ir jantar ao “Pap’Açorda” - pelo que passaram alguns anos até lá voltar, com excepção de uma vez, numa ceia organizada de propósito para receber a cantora brasileira Simone.
Felizmente chegou a viragem da década de 80 para a de 90 e tudo mudou. Daí para a frente, ao longo dos anos 90, o dinheiro deixou de ser problema, o trabalho abundava (e dava trabalho recusá-lo…), e a vida parecia ser a coisa mais fácil do mundo. Nesse tempo, o “Pap’Açorda” acolhia-me pelo menos uma vez por semana, ao almoço ou ao jantar, em reuniões de trabalho ou jantares de amigos, com a minha mãe na véspera de casar, com o meu filho miúdo a fazer o teste aos melhores croquetes de Lisboa, casado de fresco, com a equipa da “K” a pensar a revista, eu sei lá: foi seguramente o restaurante de que junto maior numero de recordações, onde vivi momentos únicos, e que mesmo nos anos em que era corriqueiro jantar lá, cada refeição tinha a sua história, a sua gargalhada, o seu momento. Não havia selfies, o que ajuda a fixar a memória e obriga e puxar pela cabeça. Gosto disso.
Mais tarde abriu a “Bica do Sapato” e eu, como este vasto grupo de clientes habituais, comecei a dividir-me pelos dois espaços - mas nunca troquei um pelo outro. Acumulei. Enquanto pude, claro.
A mudança de ciclo económico destes anos obrigou a maioria de nós a mudar de hábitos - e reduzi drasticamente as minhas idas às casas do Fernando, do José, da Manuela, do Manuel. Felizmente, o momento coincidiu com a minha crescente aproximação à cozinha e ao gosto por cozinhar. Correu bem.
Porém, passados estes 30 anos e aquela primeira noite fantástica comandada pelo Vicente Batalha, há uma coisa que nunca mudou: sempre que me perguntam qual é o melhor restaurante de Lisboa, eu respondo “Pap’Açorda”. E tendo pena de o ver mudar de poiso, espero poder continuar a dar a mesma resposta, agora no Mercado da Ribeira, para onde se transfere esta semana. Lá irei, lá irei.

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Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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