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Pedro Rolo Duarte

11
Jan17

O sabor de um queque

Há muito tempo que percebi que quase nada se repete - e quando digo “quase nada”, refiro-me ao mais simples, porém intenso, da vida: o cheiro da terra molhada do Penedo, o mar da Praia Grande sob o olhar do meu pai, a cor do céu quando anoitece em Lisboa. Conseguimos muito raramente uma aproximação, mas não voltamos onde estivemos. Tudo mudou entretanto, mesmo quando nos parece ter ficado igual.
Penso muito neste não-regresso - que é uma não-verdade, mas ao vivo… - quando tenho a tentação de reencontrar sabores de infância e juventude. Como sucedeu há dias.
Um dos sabores que apaguei da memória, por nunca mais o ter encontrado, foi o dos queques matinais da Gôndola, a pastelaria junto à casa dos meus pais, que abria de madrugada para servir trabalhadores de passagem. Todos os dias eu comprava um queque na Gôndola, morno, estaladiço, com um sabor único, algures entre a madalena e o bolo caseiro, e comia-o a caminho da Escola Eugénio dos Santos, imediatamente antes de ser assaltado por dois miúdos, sempre os mesmos, com uma ameaçadora corda, que me roubavam o troco do queque e o mais que pudesse ter e lhes interessasse. Nada, quase sempre.
Este cenário de infância reencontrou-se comigo nestes dias em que, saindo cedo de casa, procuro o melhor sitio para um segundo café. E nessa busca tropecei num queque que me devolveu essa memória quase apagada, numa esplanada tranquila e simpática, ainda por cima no bairro. Nem queria acreditar naquele milagre súbito. Estaladiço, morno, com sabor de queque da Gôndola.
Fiz bem em não querer acreditar: ao terceiro dia, a empregada da clássica “Biarritz” - cheia de fama mas com pouco proveito - informa-me que o queque já esgotou, restando apenas exemplares com nozes. Não é a mesma coisa, pensei, mas venha lá o aparentado. Veio. Era da véspera, de estaladiço tinha zero, e de sabor só mesmo as nozes.
Devolvi, reclamei, quase gritei. E vim embora na dúvida: terá existido, por duas manhãs, aquele queque que me fez sentir um sabor desaparecido? Ou foi apenas uma espécie de lembrete sobre a ideia de que a vida não se repete, num momento em que me davam jeito outras ideias, mais poéticas?
Hei-de lá voltar, para tirar teimas.

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