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Pedro Rolo Duarte

21
Set17

Onde fica Lisboa?

(Publicado hoje, quinta, na plataforma Sapo24)

 A primeira vez que fui a Veneza, a meio dos anos noventa do século passado, o que mais me impressionou – para lá de ser esmagado pela beleza natural da cidade – foi a massa compacta de turistas que tomava conta das ruas, das praças, das esplanadas, todos os dias, de manhã à noite. Ouvia falar pouco italiano e muito inglês, alemão, francês, espanhol.

Noctívago assumido, gostava de andar pela cidade depois das horas razoáveis. E o que verificava? Um enorme vazio. Ninguém. Parecia que, a partir da meia-noite, Veneza se tornava fantasma. Se me cruzava com pessoas, eram invariavelmente jovens alcoolizados, contrariando aquelas correntes de gente mole que asfixiava a cidade de dia, e que era maioritariamente mais velha, acima dos 50 anos.

Os preços, fosse de um café ou de uma pizza, constituam um assalto à mão armada. Mas pronto: era Veneza e tudo se desculpava. Na verdade, voltei lá mais uma vez, sem qualquer vontade. Tenho da cidade essa imagem de “Disneylândia”, que é “obrigatória” uma primeira vez,  mas fica ali resolvida. Não apetece voltar. Quando vejo os arquivos dessa primeira visita, noto que a maioria das fotografias que tenho foram tiradas de noite, numa ponte vazia, numa rua silenciosa, numa praça deserta. É impossível não gostar de Veneza – mas também é impossível não pensar no que seria a cidade com vida própria, com habitantes, trabalhadores, bairros problemáticos, enfim...

No fim de semana passado, desci à baixa de Lisboa. Além de ter apanhado um incomodativo, inesperado e barulhento festival de artes de rua, senti por momentos que estava de novo em Veneza. Sem canais nem aquela arrebatadora beleza vinda de um passado que subitamente nos parece pertencer.

Estava na minha cidade - mas, no fundo, estava num lugar de todos e de ninguém. Mal servido na mais lenta e indigente esplanada que jamais conheci (tomem nota: é a do restaurante Infame, no Intendente), não sabia que língua devia falar, nem tinha a certeza de estar na cidade onde nasci. Defensor de uma capital que tem tudo para ser um centro turístico de excelência, senti-me cair num poço escuro e sem fundo: faz-me alguma confusão que as más lições de Veneza (ou Barcelona, ou Amesterdão, ou mesmo do centro de Londres) não tenham inspirado nem ensinado os nossos autarcas e agentes turísticos, e que se mate sem dó nem piedade a galinha dos ovos de ouro, sem pensar que, uma vez morta, a ave deixa de dar ovos...

Lisboa, a cidade que se tornou moda nestes anos, e tem tudo para continuar a ser moda mais alguns, corre sérios riscos de deixar de “viver” e “existir” para se tornar num mero cenário. O que significa, na prática, perder sentido e submergir numa espécie de coma induzido. Tudo por falta de bom senso, planificação, e alguma ordem na bebedeira que a entrada súbita de dinheiro sempre provoca.

Entretanto, os lisboetas, como os venezianos, vivem cada vez mais nos subúrbios, como figurantes de um espectáculo que os dispensou dos papeis principais, e deixam a cidade ao cuidado da facturação desenfreada.

Depois de alguns meses confinado a dois ou três bairros laterais da Lisboa central, a passagem ligeira pela baixa da cidade não me deixou tranquilo. Por instantes, voltei a Veneza e fui absorvido pela massa de turistas que nos arrasta mesmo para onde não queremos ir. E tive saudades do autocarro verde, dois andares, que tinha o numero 1 e ligava o Cais do Sodré a Odivelas. Era tão mais simples. Dei comigo a perguntar-me onde raio estava. Lisboa?

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