Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

05
Mai17

Profissão: olhar para o lado

(Ontem, quinta-feira. na plataforma Sapo24)

Há melhor do que haver quem nos deixe a pensar, num tempo em que nos desculpamos, por tudo e por nada, com a falta de momentos para “parar e pensar”? Gosto de ler alguns dos escritores, jornalistas, ensaístas, que pontuam a revista de domingo do jornal “El Pais”. As crónicas são quase sempre boas reflexões, ou ideias bem apanhadas, lá está: que nos deixam a pensar.

Domingo passado, o escritor e jornalista Manuel Rivas, no seu “Navegar al Desvío”, recuperava uma frase de uma ex-prostituta, entrevistada no âmbito de uma reportagem sobre escravidão no século XXI. Mais do que deixar a pensar, provocou-me um verdadeiro curto-circuito mental, onde se misturaram alguns dos acontecimentos que marcaram a actualidade nos últimos dias...

A frase: “A profissão mais antiga do mundo não é a prostituição, é olhar para o lado”. Repentinamente, passaram-me pela cabeça notícias tão diversas quanto o confronto entre claques do Benfica e do Sporting, que resultaram numa morte por atropelamento; o jogo online “Baleia Azul”, que torna os jogadores, quase sempre adolescentes, em potenciais suicidas; e por fim, os dez anos sobre o desaparecimento da “pequena Maddie”, e toda a cortina de fumo que ensombrou e ensombra a investigação policial, impedindo qualquer conclusão razoavelmente sustentada. O que liga estes três casos, que chocam qualquer pessoa comum, é a ideia de nos dedicarmos a “olhar para o lado” até que o drama nos bata à porta.

Olhamos para o lado quando perpetuamos, por indiferença e negligência, a impunidade das claques desportivas, que além de serem focos de criminalidade, desvirtuam qualquer principio ético do desporto. Não apenas deixamos arder, como achamos normal que os maiores clubes permitam que as claques persistam na sua actividade. De alguma forma, caucionam e alimentam-nas. E nós com eles: nem que seja por partilharmos o mesmo estádio – e quem diz nós, diz as mais relevantes figuras da nação -, somos de alguma forma cúmplices daqueles bandos de foras-da-lei.

Olhamos para o lado quando deixamos os nossos filhos “à solta” na rede, sem qualquer espécie de pedagogia ou regra. Somos capazes de os impedir de irem sozinhos, depois de anoitecer, ao cinema ali da esquina – mas não nos preocupamos com uma plataforma que, a qualquer hora do dia ou da noite, tem predadores à solta, de cara tapada e impunidade garantida pela própria natureza do meio. É preciso haver mortos e feridos para acordarmos para uma realidade que vive connosco há já muitos anos, e que continuamos a ignorar. A internet é a mais rica criação das últimas décadas, e talvez a mais relevante forma de viver, hoje, com democracia e em liberdade – mas pelas mesmas razões, a que nos deve merecer maior atenção quando estão em causa aqueles que, pela idade e inexperiência de vida, precisam de protecção e cuidado.

Olhamos para o lado quando aceitamos, sem maior reclamação do que a clássica frase “são todos iguais”, que a justiça tenha filhos e enteados, e que haja investigações sem fim, suspeitos sem culpa formada, e casos que se arrastam por tempo indeterminado.

É preciso que nos bata à porta a tragédia, “o que só acontece aos outros”, para acordarmos para realidades que deviam envergonhar toda a gente e obrigar a agir, a reagir, em vez de adormecer. Já não acredito que mudemos a tempo de eu ver – mas morrerei a pedir que o tempo do meu filho, dos meus netos, seja outro. Sabendo olhar de frente e acabando de vez com a mais antiga profissão do mundo.

1 comentário

Comentar post

Blog da semana

(Un) Naive. Blog de uma jovem de 21 anos que, nos intervalos do curso de Relações internacionais, viaja, faz voluntariado por todo o mundo, e inspira entre textos e fotografias. É o blog da Rafaela.

Uma boa frase

“O Outono é feito de conforto e de amparo, como um colo apetecido onde se deita a cabeça para apaziguar o corpo e a alma, ou o calor de um abraço do qual não queremos soltar-nos." Isabel Mouzinho, Isto e Aquilo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D