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Pedro Rolo Duarte

28
Jun14

Sala de espera

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês já está aí nas bancas, ainda quente...)

O casal, de mão dada, tenso, olhava a medo à sua volta. Olhava-me a medo, olhava a medo a rapariga que não parava de mexer no telemovel, e evitava olhar o casal homossexual que parecia aterrorizado pelas circunstâncias daquele improvável encontro numa mesma sala de espera.
Rosada, a rapariga encostava a cabeça no (seu) rapaz. Pareciam noivos ou recém-casados A sala fria, como todas as salas de espera de uma unidade de saúde, não tinha nada que amenizasse o ambiente. Nem a luz demasiado crua e branca, nem as cadeiras, coladas umas às outras, nem o que havia para descontrair - em vez de revistas cor de rosa, folhetos de toda a espécie. Maiores, mais pequenos, com bonecos ou fotografias, folhetos.
Estivemos juntos não mais de meia-hora - eu, o casal homossexual muito tenso, o casal heterossexual inquieto, e ainda a rapariga nova, muito magra, sempre agarrada ao telefone.
Não minto: também me agarrei ao telemóvel. Já escrevi que o smartphone é o melhor amigo das pessoas pontuais, que ocupam o tempo de espera consultando a meteorologia ou lendo jornais. Mas agora acrescento: o smartphone pode ser também o melhor amigo de quem está à espera de uma noticia que pode ser boa, ou má. A melhor ou a pior.
E era isso que eu e a rapariga muito magra fazíamos, ocupando o tempo no telefone com patetices, enquanto os dois casais sofriam em solidão aquela meia-hora de duvida e vida em aberto.
Abro a porta para o cenário: estava na sala de espera de um dos CAD (Centro de Acolhimento e Detecção de VIH), lugares onde, gratuita e confidencialmente, se fazem testes rápidos para detectar a infecção que pode conduzir à SIDA. Todas estas pessoas eram muito mais novas do que eu - que, além de mais velho, estava mais ou menos seguro (tanto quanto isso é possível…) sobre o resultado do teste que voluntariamente me propus fazer. Mas esta diferença não distingue o que se sente quando ali nos encontramos: a duvida sobre uma hipótese que, mesmo sendo hoje considerada uma “doença crónica”, nos deixa a vida suspensa, no limite condenada, seguramente condicionada.
Cada um de nós estava ali por razões distintas. Imaginei que o jovem casal quisesse certificar-se da sua condição antes de procriar; imaginei o casal homossexual nos primeiros dias de namoro, querendo sentir-se “livre de perigo”; imaginei a rapariga solitária alguns dias depois de um comportamento de risco irresistível (o amor é tantas vezes irresistível…).
E sei de mim, mais ou menos seguro da condição, mas ainda assim… Bom, não farei considerações sobre o tema.
Um a um, fomos chamados a uma psicóloga, que nos alertou sobre os perigos de uma má noticia inesperada, e que tentou perceber o que nos levava a querer passar por aquela provação. Depois, um a um, fomos ao teste com a enfermeira friamente simpática. E por fim, a tal meia-hora de espera pelo resultado.
Essa meia-hora é que conta. Vim para o pátio de Centro de Saúde fingir que estava ao telefone, para não denunciar a apreensão por aquela noite de há cinco anos, ou por um qualquer descuido idiota, e dei de caras com o casal homossexual, de mão dada, com a expressão mais angustiada deste mundo; mais à frente, a rapariga do telemóvel fumava cigarro sobre cigarro como se o mundo fosse acabar dali a nada. O casal recém-casado nem sequer saiu da sala de espera. Como se todos estivéssemos num tribunal sem juiz, nem advogado, nem testemunhas. Na mais terrível solidão.
Fui o primeiro a ser chamado à psicóloga (a mesma de há bocado). Sem alegria ou tristeza, ou seja, sem expressão, lá me disse que o resultado era negativo e que a “janela” que tudo pode estragar estava fora de hipótese. Estava livre. Claro que me senti aliviado.
Mas, ao sair do gabinete da psicóloga, passando pela sala de espera, vi aqueles pares de olhos angustiados, pousados sobre mim, e senti uma terrível responsabilidade. Sorri e disse: “está tudo bem!”. Não sei por que raio me saiu tamanha estupidez - estando bem comigo, podia não estar com eles -, mas talvez tenha sentido, naquele momento de nudez e vazio, uma cumplicidade com aquelas tão diferentes pessoas e expectativas.
Percebi, por fim, que uma sala de espera onde se encontram esperanças e desesperanças de toda a espécie, não é mais do que um espaço onde deliberadamente abdicamos da individualidade para sermos, por uma vez, todos iguais. Na saúde somos extraordinários. Na doença somos o mais comum dos indivíduos. Nem pensei nisso quando decidi despistar o HIV - mas foi assim que me senti naquele bocado de vida. Saí. Mas vai ser difícil esquecer.

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