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Pedro Rolo Duarte

09
Abr16

Todos queremos tranquilidade

Deixemos as bofetadas e olhemos um assunto sério.

Uma página do “Público” de ontem, assinada por Alexandra Campos, e muito bem documentada, dizia assim: “Em 2015, venderam-se 11 milhões de embalagens de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos. "É uma vergonha”, diz responsável pela Aliança Europeia Contra a Depressão”. E no corpo da matéria: “Na União Europeia, os portugueses estão entre os maiores consumidores de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos. O problema é que, apesar dos sucessivos alertas, a prescrição deste tipo de medicamentos não está a diminuir de forma significativa e sustentada em Portugal. Por isso, a Aliança Europeia Contra a Depressão - uma organização não governamental cuja associação representante em Portugal é a Eutimia e que apoia pessoas com depressão e em risco de suicídio - propõe que estes fármacos deixem pura e simplesmente de ser comparticipados pelo Estado, a não ser em casos especiais”.
Não me surpreende que apareça quem defenda o fim da comparticipação de determinados medicamentos - o que me deixa sem fala é haver uma Aliança Europeia Contra a Depressão que ache uma vergonha o alto volume de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos que se consomem em Portugal, sem antes cuidar de saber se há razões para que tal suceda.
Tenho a tentação de achar que há. Tenho a convicção de que a esmagadora maioria dos médicos receitam com bom senso e sabedoria. Acho que bastam umas horas de “passeio” pelo Facebook, pelas ruas das cidades portuguesas, pelos Centros Comerciais, uma hora de Telejornal, ou apenas uns minutos pelo trânsito de Lisboa, para admitir que talvez este número elevado de medicamentos calmantes, e que limitam a ansiedade, resulte da forma como vivemos, da sociedade que aceitámos integrar, e da impossibilidade de ultrapassar o que sentimos apenas com yoga, meditação e chá.
Há anos que escrevo neste blog a mesma coisa: Portugal é, em si, um país deprimido. A forma como tal patologia se manifesta é que varia conforme a formação de cada um de nós. Há quem já tenha percebido que a psicoterapia é essencial para nos ajudar a encontrar sentido para os dias que vivemos, há quem veja nos medicamentos a solução ideal, há quem use a violência para libertar a sua frustração. Há de tudo.
Mas há algo que é incontornável: não é cortando uma comparticipação, ou limitando o acesso aos tranquilizantes, que o problema se resolve. Pelo contrario - medidas dessa natureza potenciam a forma já de si tensa e agressiva com que convivemos diariamente. A solução começa num diagnóstico correcto e acaba em soluções que nos levem a viver com mais qualidade, maior respeito pelos direitos de cada um, e acima de tudo um horizonte menos escuro do que aquele que há tantos anos nos exibem. E todos vemos.
Quando aí chegarmos, talvez os tranquilizantes deixem de nos fazer falta. Porque viveremos mais tranquilos sem eles.


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