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Pedro Rolo Duarte

28
Jul16

Uma brincadeira séria

(Hoje, quinta, na plataforma Sapo24)
Subitamente, num Verão manchado pelo sangue e pelo terror, um jogo veio abanar as vidas de milhões de pessoas e, ainda que por minutos, deixá-las fora da loucura que nos rodeia e entrar numa bastante mais pacata aventura: apanhar, com um telemóvel, bicharocos que julgávamos desaparecidos.
Eu, pelo menos, julgava. Se me dissessem, há um mês, que os Pokemóns, que dominaram o universo infantil do meu filho no final dos anos 90, iriam voltar com mais força, mais vida, e agora iam arrebatar os mais novos e os mais velhos em simultâneo, não acreditaria. Mas, cada vez mais, o mundo é inacreditável - e no entanto, existe…
O jogo “Pokemon Go”, que está a dar a volta à cabeça de meio-mundo por todo o globo, batendo recordes de downloads de uma aplicação em escassos dias (mais de 75 milhões em apenas 20 dias, sendo certo que está disponível em apenas 32 países), é um caso de estudo - por todos os motivos, incluindo os mais inesperados, como a sucessão de notícias que motivou em todos os media. O sucesso do jogo, e a figura dos jogadores, na rua, de telemóvel em punho, junto com os faits-divers do costume (da igreja que atrai fieis com Pokemóns, à PSP empenhada em também os “caçar”…), criaram rapidamente uma onda de gozo e até de maledicência sobre o jogo. Nada de novo. Sempre que há um fenómeno viral, há logo um grupo de intelectuais desconfiados…
… Nada mais precipitado e sem sentido. Descarreguei o jogo para perceber o fenómeno - mas talvez convenha avisar previamente que nunca gostei de jogos de computador, consola ou telefone; e continuo a não gostar nem praticar. Que me lembre, o único a que achei alguma graça foi o “Guitar Hero”, da Playstation, porque me permitiu voltar a uma paixão de infância: a bateria! Dito isto, a “app” que fez renascer a Nintendo - em todos os sentidos, a começar no seu valor comercial… - constitui a primeira aproximação entre a virtualidade dos jogos e a realidade dos lugares por onde andamos. Nesse sentido, é muitíssimo bem conseguido, porque mistura o puro entretenimento - apanhar bonecos que não estão em lado nenhum, mas estão nos nossos telefones… - com conhecimento sobre a cidade onde nos encontramos. Descobri, por exemplo, o significado dos símbolos que estão incrustados na parede do edifício onde vivo, como descobri que há um castelo de brincar, para crianças, aqui no bairro…
Por outro lado, e numa reflexão mais séria, “Pokemon Go” faz os jogadores saírem do ninho, do seu reduto. Traz as pessoas para a rua - e ao misturar virtualidade com paisagem real, humaniza o jogo e quem o joga. Com isso, abre portas para toda uma nova filosofia no que aos dispositivos móveis diz respeito: não são mais objectos fechados onde mergulhamos em mundos muitas vezes inexistentes, tornam-se parte da realidade de cada um. E são estas evoluções, ou novidades, que ajudam a tornar tão popular - e instantâneo… - o que seria apenas mais um jogo para telemóveis.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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