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Pedro Rolo Duarte

28
Jun10

O visível que ninguém vê (ou o elefante a passear na sala)

Tenho lido diariamente as páginas centrais do Correio da Manhã (tem dias que não é nas centrais, mas anda sempre ali perto). Desde há semanas, aquela dupla-página reproduz integralmente as escutas telefónicas do caso PT/TVI. Metódica e organizadamente. Com os nomes, os casos, as sms, os telefonemas. Tudo preto no branco, sem comentários ou interpretações, apenas factos, reproduções de conversas que foram gravadas - e, portanto, não podem ser desmentidas -, numa soma de episódios que parecem mais italianos do que portugueses, e numa cronologia que não permite duvidar ou negar o que ocorreu. Só não vê quem não quer mesmo ver…

A vantagem deste serviço público do Correio da Manhã é que, liberto dos empecilhos habituais dos legalismos que tantas vezes têm impedido que se faça justiça, permite que cada leitor ajuíze, por si, sobre o que está em causa. Aquelas conversas ocorreram, aquelas sms’s foram trocadas. Podem os Tribunais e os Parlamentos fazerem-se de surdos “em nome da lei” e por obediência ao “regimento”, ao ”regulamento” ou ao tão amado “erro processual”, pode a esgrima dos advogados ser mais ou menos feliz sobre as armadilhas do legislador, mas nada disso apaga evidências e factos.

O que resulta da leitura diária do CM é radicalmente divergente do que sucede na praça pública. Trata-se de um insólito caso de inversão da prova: ainda que aquelas páginas nos demonstrem e provem um dos mais graves atentados à democracia e à liberdade de expressão de que tenho memória no pós-25 de Abril (ok, 1975 à parte…), e que se estende bem para lá da TVI e do casal Moniz/Moura Guedes, e estando o escândalo nas páginas do jornal diário de maior expansão, o que sucede é que a Comissão Parlamentar não consegue concluir nada, os mecanismos da justiça não conseguem e/ou não podem “ouvir”, e os procedimentos legais encarregam-se do resto. Os (outros) jornais também não lêem o Correio da Manhã. O Presidente da Republica persiste em não ler jornais. A “Europa” não conta para este insólito acontecimento.

Todas as escutas que exibem tristemente a verdade são, afinal, “nulas” e servem hoje apenas para que saibamos como o sistema está feito para que não funcione. Ou seja: encarregam-se de fazer com que o elefante que se passeia pela sala não seja afinal visto por alguém.

Se quisermos ir mais fundo, este caso mostra o que mudou dos tempos de “O Independente” aos dias de hoje – há 20 anos, este trabalho do Correio da Manhã já tinha feito cair o Governo, já tinha feito algumas pessoas mudarem de vida, e certamente recentrara o mundo político. Nos dias que correm, não apenas nada acontece como a maioria dos envolvidos continua a passear-se em cima do elefante que todos fazem de conta que não vêem.

Já tinha visto muita coisa nestes 46 anos de vida. Nunca tinha visto o visível tornar-se invisível mesmo estando à vista.

5 comentários

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    Paulo Ribeiro 01.07.2010

    Gostava de saber que tipo de coragem fala? A mesma que utiliza no seu comentário depreciativo ó inefável Fernando? É que coragem para escárnio e maldizer é típica do portuguesinho, desde sempre. Esse tipo de coragem temo-la e em subida dosagem. Agora, amigo, coragem a sério é não enfiar princípios na gaveta (ainda que esses sejam incompreensíveis ), tais como os do Estado de Direito. Se coragem para si é revelar conversas privadas onde um tipo pode dizer as coisas mais incríveis julgando estar a coberto da sua, julgo eu, inalienável privacidade (que raio é essa coisa de se abrirem processos, ainda que de natureza jornalista com conversas privadas?) , só porque o visado é pessoa publica, e se para si ser corajoso significa ler essas conversas num jornal que normalmente se ocupa de assuntos igualmente importantes, tais como, com quem é que fulana dormiu, ou com quem é que beltrano foi visto, se para si ser corajoso é ler e comentar essas fofocas, vexa pode até estar satisfeito consigo mesmo e encher o peito: eu sou corajoso e tal. O Pedro Rolo Duarte é corajoso e tal. Sim pode fazê-lo, está no seu direito e faça bom proveito, mas, eu direi: Vexa, não passa de um portuguesinho. Lamento. O portuguesinho não é nada de especial, mas ainda assim em versão limitada. O portuguesinho é aquele tipo que se assemelha a um adepto de um clube, sendo invariavelmente adepto mesmo. Trata tudo a eito como se estivessem a tocar no seu clube do coração. Ora, do portuguesinho não se espera grande coisa, pois não?
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    Fernando Martins 01.07.2010

    É curioso que alguém que assina mas não tem a coragem de dizer quem é (eu linkei o meu nome...) venha para aqui arrotar postas. As escutas foram autorizadas por um Juiz, a pedido de um Procurador e segundo um grande especialista na matéria, que lecciona na Universidade de Coimbra, são válidas e não deviam ser destruídas (e não vi o PGR ou PSTJ ou meninos de coro do PS dizerem nada sobre os argumentos de Costa Andrade - porque será?).

    As escutas apenas provam que o PM (sigla que significa Primeiro Ministro e não Primeiro Mentiroso) se equivocou por diversas vezes quando jurou aquilo que não era verdade; mostra que o PS e a sua boysada joga a um nível que põe o Nixon e sus muchachos numa III divisão; mostra um país caído, cheio de mentirosos, trafulhas e aldrabões, que assobiam para o lado e põem o aparelho a atacar quem lê o que passou neste caso. Porque não processam o Correio da Manhã ou dão autorização para a totalidade das transcrições das escutas sejam publicadas?

    É triste chegarem tão baixo...
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    Paulo Ribeiro 02.07.2010

    Desculpe? (Ponho o monóculo) aonde é que o amigo me leu a criticar a existência de escutas? Aonde? Repare o seguinte se quiser e tiver a cabecinha limpa: o problema não são as escutas, nem nunca foram, ok? O problema a é sua divulgação, certo? Isto já foi mais do que falado mas ainda assim veja bem: imagine que Vexa é escutado pela PJ porque suspeitam que anda a trair a sua mulher. Vexa de facto tem mantido uma conversas "picantes" e brejeiras com um amigo, sim amigo. Chame-lhe menina, diz que lhe vai beliscar o rabo e outros quejandos. Bom, vai daí, o Juiz de Direito que mandou gravar as conversas, decide abrir uma investigação, na qual, os inspectores chegam à conclusão de que tudo não passava de palinódia entre dois heterossexuais casados. Que faz o senhor Juiz? Destrói ou manda destruir as gravações e conclui o inquérito com um despacho de arquivamento. Ou seja, a sua mulher e Vexa, nem sequer chegarão a tomar conhecimento que uns quantos marmanjos consideravam-no um ganda maluco homossexual e adultero, certo? Nem ninguém (a comunidade). Caso em que Vexa poderia continuar a aparecer no trabalho e no café de cabeça levantada, certo? Agora, imagine que antes da investigação ou inquérito, a PJ ou o Juiz ou quem quer que seja, colocava as referidas escutas na praça pública, ou, melhor, imagine que depois de arquivado o inquérito, ainda assim, se colocavam as escutas na praça pública. Aí eu pergunto ao portuguesinho curioso que Vexa é: conseguiria convencer a sua mulher e o seu vizinho de que não andava a atracar por trás? Conseguiria? Talvez sim. Talvez a sua mulher acreditasse em si (com uma pontinha de dúvida), mas, o seu vizinho, aquele com quem às vezes troca algumas atoardas, esse, trataria de elogiar o trabalho de quem divulgou as escutas e de quem a amplifica. Por fim, deixe-me dizer-lhe uma coisa complexa. A liberdade e o Estado de Direito são ambas categorias frágeis. Quando defendemos princípios e valores não podemos olhar para as pessoas, não podemos personalizar. Sabe porquê? Porque nos arriscamos a confundir a frigideira com a refeição preparada nela.
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    Fernando Martins 02.07.2010

    Caro "Paulo Ribeiro":

    Acima do direito à privacidade está a Lei e o seu cumprimento.

    Não me interessa nada se um qualquer "senhor engenheiro" foi passar férias para Espanha na companhia de um brasileiro, se praguejava, se insultava ou traía a mulher (estas partes poderiam e deveriam ser retiradas das escutas ou das suas transcrições).

    Tudo o resto, que prova que temos primeiro ministro mentiroso e que está rodeado de uma máfia político-económica capaz de fazer corar de vergonha Itália nos anos 80 ou Chicago nos anos 20 e 30 do século passado. já me interessa e devia interessar V. Ex.cia.

    E foi aí que chegámos porque a malta dos aventais e o grupo dos Juízes engajados politicamente assim quis. E não se queixe do resultado, queixe de ter um chefe que é tão parvo ao ponto de mentir aos tribunais, ao Parlamento e aos meios de comunicação sobre coisas que facilmente se comprovam - nem era preciso o Correia da Manhã dar ao trabalho.

    Como está a fazê-lo e ninguém o processa (é curioso...), caro anónimo, há que recordar a porcaria que é e faz José Sócrates e a máfia que o rodeia.
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