Pedro Mana em “Não quero comer o alho”... (Parte I)
«Nunca devemos comer o que dá sabor à comida», dizia-me o velho Chau, motorista de meu pai, quando me queixei dos maus tratos a que tinha sido submetido aqui, em Lisboa, numa noite quente de Agosto, só por ter tido a ousadia de meter conversa com uma rapariga – ocidental, loura e angulosa, talvez mesmo nórdica, de grandes olhos azuis – depois de jantar uns peixes cujo nome desconheço, acompanhados por açorda. O problema, é bom de ver, não estava nos peixes, mas na puta da açorda - e perdoem-me a inconveniência, mas foi assim mesmo que a senti naquela época –, que tinha dado uma trabalheira ao cozinheiro, senão estou em erro o Miguel Ca, mas ao mesmo tempo deu cabo de uma bela noite de farra, como não ocorria habitualmente nas minhas passagens por Lisboa.
Meu pai nunca confiou nas cozinhas distantes. Quando vinha à capital do império, fazia-se acompanhar de um dos cozinheiros lá de casa, sempre o Miguel Ca ou o Carlos Arturo (este, de origem sul-americana), e convencia gerentes de hotéis e restaurantes a deixarem o nosso homem de confiança produzir os pratos, sempre a partir do que encontravam nas cozinhas onde abancávamos. O problema é que era impossível confeccionar a maior parte das receitas preferidas de meu pai. Faltavam sempre ingredientes: soja, crepes, cães tenros, macacos pendurados, chau-chau, «à pequim», roleta, gin tónico, dados de póquer, entre outros. À falta de melhor, lá marchavam uns peixes fritos quaisquer, acompanhados de uma açorda.
E a açorda é que arrumava com as minhas noites. O Ca (o Arturo menos, mas também) era rapaz para gastar duas horas a migar alhos, à mão, para fazer uma açorda. O seu trabalho era a nossa desgraça. Ficava saborosa, mas nós ficávamos intragáveis. O hálito sentia-se a uma distância considerável e não raro a manhã chegava e dava connosco (eu e meu irmão Mico Mana) numa sessão da «Ah-uh» (espécie de culto religioso clássico em Macau, que deve o seu nome ao Grande Mandarim Chôri So). A meu pai isso não fazia espécie, porque depois do passeio nocturno, a pé, pela Avenida da Liberdade, enfiava-se na cama da suite 789 do Tivoli e dormia tranquilamente até à hora a que Beatriz Costa gritava pelo seu leite meio-gordo com café de saco. Agora a mim, e ao Mico, que Deus tem, aquilo era pior do que óleo de fígado de bacalhau à colher.
Não descansei enquanto não descobri a fórmula mágica. Consultei livros de culinária, tratados de gastronomia, obras das «Selecções» sobre donas-de-casa e «Como Resolver Tudo Em Casa». Não obtive resposta sobre esta pergunta básica: como comer uma açorda com o sabor do alho, sem ter de comer o bicho propriamente dito?
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(Continua e conclui amanhã...)