Mas daí ao voto, ao peso eleitoral, vai um certa distância – espero e acredito.
Assim sendo, confesso (e convém notar que esta confissão vem de uma pessoa que já terá sido de esquerda, no sentido mais ortodoxo da palavra...): tendo José Sócrates desiludido a minha expectativa neste mandato, não me passa pela cabeça votar “alternativamente” no Bloco de Esquerda. O drama daqueles que acreditaram numa certa ideia moderada do PS de Sócrates está exactamente aí: não se revêem à esquerda nos aventureirismos de Alegre, nas ambições arrivistas do Bloco, ou na “aldeia gaulesa” onde resiste o PCP; nem, por outro lado, encontram alternativa séria e credível neste PSD, nos novos Movimentos pretensamente humanistas e pueris, ou no discurso zig-zag do CDS.
A esquerda que o Bloco pode herdar (ou capitalizar, numa linguagem mais modernaça...) é aquela que ainda não percebeu que está num beco sem saída. A outra, a que porventura sinto pertencer, anda à procura daquilo que perdeu: a confiança.
Basta, às vezes, abrir um desses livros, para perceber por que ganham pipas de massa os tipos que escrevem os best-sellers de “auto-ajuda”:
“Quando projecta imagens inspiradoras e imaginativas no ecrã da sua mente, começam a acontecer coisas maravilhosas na sua vida. Einstein disse: «A imaginação é mais importante do que o conhecimento». Reserve algum tempo todos os dias, ainda que sejam apenas alguns minutos, para a prática do visionamento criativo. Todos os actos extraordinários começam por ser apenas um sonho”.
... A razão do sucesso é simples: estes autores cumprem a expectativa que temos, escrevem exactamente o que sucede a cada um de nós e aquilo que queremos que nos conforte quando porventura os lemos. Eles estão certos – e na medida em que ajudam, não sou capaz de os criticar.
Confesso: fiquei tranquilo, ontem, quando vi que o texto citado era a recomendação que “me” fazia Robin Sharma para o dia 6 de Fevereiro. Robin Sharma é um mago da auto-ajuda, autor do livro “O Monge que vendeu o seu Ferrari”, que não li porque efectivamente nunca desejei ser monge nem ter um Ferrari. Em rigor, nem sei quem é Robin Sharma – mas não me custa perceber a sua lógica: somos mais felizes quando sentimos que nos compreendem e quando nos identificamos com as palavras que nos dizem. A simplicidade desarma sempre – e afinal, foi a arrogância intelectual de quem nunca quis perceber isto que divorciou a cultura do comum dos mortais.
Vou ler mais algumas recomendações do tal Sharma. O livro que aqui tenho tem uma para cada dia do ano. Como se fosse um comprimido.
As televisões têm passado a gravação dos diálogos entre o comandante Chesley Sullenberger, que amarou um Airbus A320 no rio Hudson, em Nova Iorque, há poucas semanas, e permitiu que uma anunciada tragédia constituísse antes o milagre da sobrevivência de todos os 150 passageiros a bordo daquele voo.
Já se tinha percebido que uma longa carreira iniciada como piloto de caças da Força Aérea norte-americana, com mais de 19000 horas no ar, somada ao interesse sobre os temas da segurança e procedimentos de emergência, faziam deste homem, naquele dia, a pessoa certa no lugar certo.
Mas faltava realmente ouvir a sua voz nos diálogos com a torre de controlo do aeroporto desde o segundo zero da crise até à decisão unilateral e final. A gravação deve ter um minuto, não mais. As respostas de Chesley Sullenberger à Torre são secas e firmes, serenas e exactas, mesmo quando anuncia que vai amarar no rio. O tom da sua voz nunca se altera, seja quando percebe que fica sem os dois motores ou na decisão de não voltar para La Guardia, não arriscar o aeroporto alternativo, e optar pela amaragem. Ao ouvi-lo, qualquer pessoa percebe o sucesso da operação: a voz transpira segurança, saber, e convicção. Talvez também um pouco de fé, não consigo avaliar.
Mas consigo, qualquer pessoa consegue, sentir no tom de voz, na economia das palavras, na ausência de qualquer descontrolo, o peso e o valor da idade, da experiência, e da sabedoria que os anos podem trazer. Está ali uma lição para aplacar o culto da “eterna juventude”. Está ali a mais notável campanha de marketing que pode ser feita para defender o valor da idade. E faz muita falta, essa campanha.
Às tantas, em “Vicky Cristina Barcelona”, o personagem interpretado por Javier Bardem tenta explicar o insucesso da sua relação com (a personagem de) Penélope Cruz, e diz qualquer coisa como isto: o amor que temos um pelo outro é único, eterno, praticamente perfeito. Mas o amor é como o corpo humano: a falta de um elemento aparentemente irrelevante (ele dá o exemplo do sal...) pode desfazer o corpo até à morte. Na sua solidez, poderia dizer, é mais frágil do que aparenta.
No filme, esta ideia parece verdadeira – mas o espectador sai da sala a pensar que é exagerada, sobrevalorizada, quase absurda.
Uma hora mais tarde, o espectador reconhece que a ideia tem algum sentido e que, embora no domínio do excesso ficcional de um Woody Allen, merece um bocadinho mais de atenção.
Meia-duzia de horas depois, o espectador rende-se: o amor é um sentimento forte, poderoso, possante e envolvente – mas, como um corpo humano, não precisa de mais do que um ligeiro desequilíbrio para ir desta para melhor. Ou cair à cama.
Os filmes de Woody Allen têm esta magia apaixonante de nos envolver devagar até ficarmos presos à sua genialidade. Este “Vicky Cristina Barcelona” não foge à regra. Desde ontem que penso nele sempre que penso em algo que vale a pena pensar...
Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.
Uma boa frase
Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira
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