Praticamente todos os dias passo, a caminho do lugar onde estaciono o carro, por uma sucursal da agência de viagens Marsans. Ao longo do tempo fui-me habituando às mudanças sazonais da montra, dos programas de neve para os pacotes de praia, e assisti ao declínio e fecho da marca. Deixou de haver mostruário de catálogos na rua, depois começaram as noticias de jornal sobre a insolvência da agência, e depois a eminência do fecho, a loja com a porta sempre encostada, e por fim a morte da Marsans e a sucursal fechada, sem vivalma lá dentro.
Durante uns meses, só restavam papeis e umas mesas vazias na loja. Depois forraram as montras e deixou de se perceber o que lá se passava. Há cerca de um mês, a porta da loja abriu-se de novo e comecei a ver operários lá dentro. Obras. E um cartaz na porta: “precisa-se empregado”.
Esta semana, com a chegada dos autocolantes que agora ocupam o lugar onde antes estava escrito “Viagens Marsans”, desvendou-se o “segredo”: naquele lugar nasce, hoje ou por estes dias, a “Casa do Chocolate”, mais um “braço” da clássica e antiga Arcádia do Porto. O primeiro em Lisboa, julgo eu. Ontem à noite, um grupo generoso de pessoas atarefava-se a ultimar a loja, dispunha chocolates em montras novinhas, alinhava tabletes nas prateleiras, ligava caixas registadoras, aspirava o chão de madeira. Às 10 da noite a agitação era mais que muita, e ao passar à porta não disfarcei um sorriso. Afinal, ali houve morte - ali há agora vida. Este simbolismo encontrado num espaço banal de uma rua banal traduz qualquer coisa relevante: a de que nada impede um “começar de novo”. Com ou sem crise. Com ou sem sondagens optimistas e números vermelhos.
No lugar das viagens, o chocolate. Uma marca antiga – lembro-me de que era obrigatório ir à Arcádia quando se ía ao Porto, como comer queijadas em Sintra ou sardinhas debaixo da ponte em Portimão... – “acorda” um espaço que estava marcado pelo falhanço, ilumina um bocado de rua que estava tristemente escuro, e adoça os dias que faltam para o Natal. Em breve, já nem eu me lembro de que ali eram as Viagens Marsans. Admiro quem ousa em tempo de encolhas – e acreditem que ver aquela loja renascer me inspira e convoca. Um dia destes, “viro a boneca” e faço-me à estrada...
No mínimo, estou aliviado: a ver pelo exemplo que sempre constituem os “famosos” que pontuam as revistas cor-de-rosa, este vai ser um Natal “à antiga”. Cláudia Vieira, por exemplo, na VIP, acha que “as pessoas não têm de ter a obrigatoriedade de dar presentes. O que dá significado ao Natal é passar uma noite agradável, confortável, em paz, com as pessoas de quem mais gostamos”. Na Nova Gente, uma misteriosa Bernardete Sabrosa, cuja profissão nem chega a ser revelada e parece não ter nada a ver com o futebolista, afirma que ama “o Natal, mas não no sentido dos centros comerciai, das luzinhas irritantes e das compras à última hora!”. Bem mais popular, a apresentadora Fátima Lopes não compra presentes nem para os amigos nem para os familiares, só para as crianças. Diz à Flash: “O Natal começou a perder o seu verdadeiro significado, que é ser uma festa de família. O presente é uma coisa perfeitamente dispensável”. Também Jéssica Athayde se mostra indignada na Caras: “Este consumismo irrita-me imenso. (...) Sou contra esse consumismo e não me interessa nada a questão de dar ou receber presentes”. São só alguns dos muitos exemplos que tenho lido.
Sinceramente, esta combinação espontânea de despojamento e humanidade que atravessa as nossas figuras da TV e os “famosos profissionais” comove e deixa-me o coração quente.
... Já não consigo vislumbrar com tanta facilidade a coerência entre o discurso do ódio ao consumismo, nesta época do ano, e o apelo desenfreado ao consumo que as mesmas figuras fazem todo o resto do ano nas campanhas de publicidade que protagonizam, nas “presenças” nos lançamentos de produtos, nas galas onde exibem os vestidos e as jóias, nos concursos onde oferecem sonhos e expectativas, na fúria do “caça-presentes” em qualquer lançamento de telemóvel ou consola.
Ou seja: de Janeiro a Novembro, é tudo estrada – e chegados a Dezembro, vamos lá ser solidários, pensar nos pobrezinhos, e fazer o discurso socialmente correcto. Por pouco não parecem políticos em campanha eleitoral.
Acho que, apesar de tudo, prefiro o comum dos mortais, que chega a este mês final do ano e pensa: que se lixe o subsidio, “bora” lá fazer umas compras antes que venha o IRS. Como se não houvesse amanhã.
Milan Kundera terá escrito que “A vida é a memória do povo, a consciência colectiva da continuidade histórica, a maneira de pensar e de viver”. Foi nisso que pensei aqui há dias ao passar à porta do que foi – e ainda se sabe que foi porque resta o letreiro na fachada... – o Teatro Vasco Santana.
Um dos maiores actores portugueses de sempre, que atravessou gerações e chegou aos nossos dias não apenas como um nome, mas como alguém cujo trabalho apreciamos e nos faz rir, teve um dia a honra de ter um Teatro com o seu nome. O futuro do seu passado não lhe podia ter feito melhor e mais justa homenagem.
Mas honrar a memória e respeitar o seu legado – e assim fazer da História a boa “arma de arremesso” para que o presente e o futuro façam sentido -, seria manter o “seu” teatro de pé. Deixar que continuasse a guardar memórias no nome, e vida a fazer rir, emocionar, comover espectadores.
Não foi isso que aconteceu. Fotografei com o iPhone a fachada, mas confesso que a fotografia do blog Cidadania Lx é melhor e mais clara. Fica essa. Basta olhar. Basta imaginar o que seria de uma sala Frank Sinatra, em Nova Iorque, totalmente destruída e decadente no meio de Manhattan. Ou um teatro Laurence Olivier a cair da tripeça em Londres . Como se pode conviver com o desrespeito e a negligência perante os que ajudaram a fazer de nós o que somos, quem somos?
O estado do Teatro Vasco Santana, e esta imagem que aqui deixo, é um sinal mais do Portugal em que vivemos: nunca um período de expansão será fecundo enquanto, entre tantas malfeitorias, desbaratarmos a História que nos orgulha. Nunca um passado terá futuro enquanto sonharmos com Mundiais de Futebol sem antes atingirmos Mundiais de Orgulho e respeito pela História. Nunca um novo prédio construído vai substituir o edifício com passado que deixámos desmoronar. Quem não perceber isto – e a esmagadora maioria de quem nos governa não percebe -, não pode sequer perceber o mundo em que vive. Quanto mais receber votos.
Este também é o drama que a crise mostra, mas ninguém quer ver. Vamos continuar a fazer contas de merceeiro para “safar” a pele. Quando passar este aperto, continuaremos e maltratar Portugal como se não houvesse amanhã.
Triste, como pensar que Vasco Santana tem o nome posto neste bocado de escombro.
Se me perguntassem se estaria vivo, não sabia o que responder. Mas está, o cineasta Jean-Luc Godard está vivo e recomenda-se. Tem 80 anos (feitos esta sexta-feira, 3 de Dezembro), um novo filme (“Film Socialisme), e um livro biográfico polémico. Leio no suplemento cultural do El Mundo a entrevista originalmente dada para a revista francesa “Les Inrockuptibles”, e fixo esta ideia:
“O direito de autor realmente não tem razão de ser. Eu não tenho direitos, só tenho deveres”.
É raro ver um criador dispensar assim, tão simplesmente, a criação. Na mesma entrevista, o cineasta insurge-se contra a ideia de herança – “não me parece razoável que os filhos de Ravel recebam pelos direitos do seu Bolero”... -, e recusa a ideia de ter uma obra. Quanto muito, aceita ter tido um caminho.
Não concordo com qualquer destas ideias, e é óbvio que defendo o inalienável direito de autor, tão maltratado pela sociedade da informação e da tecnologia. Mas admiro quem, aos 80 anos, persiste nas suas utopias, vive de acordo com os seus sonhos, e dispensa a pretensa modernidade de um tempo sem causas nem ideais. Nunca admirei o cinema de Godard, nem me revejo na sua geração – mas isso não me impede de admirar tudo o que significa e representa. É de respeito que falo. Lá está, uma palavra em falta nos dias que passam.
Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.
Uma boa frase
Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira
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