Mais do mesmo
A única certeza que tenho sobre o “episódio Pingo Doce” é esta: se acaso tivesse ocorrido num período sem austeridade, em tempos de vacas gordas e expansão, o resultado seria exactamente o mesmo. Qual é a parte do “isto não é fome, é vontade de comer” que escapa por aí?
A mesma miséria humana da corrida à borla e ao desconto – já vi homens à bulha por uma máquina fotográfica digital -, a mesma fúria das campanhas eleitorais em que se ofereciam sacos de plásticos e canetas sem tinta, a mesma loucura que o meu pai tão bem descrevia quando contava a história de um lugar de estacionamento disputado aos gritos sob a frase “Vai já lá!”. Ou as histórias que enchiam a mesa de jantar quando o pai descrevia os concorrentes de concursos de televisão, os figurantes, os que tentavam dar o golpe. “O melhor amigo do homem é o cão, o pior é o concorrente de concursos de televisão”, fixei a frase. E já eram os anos 80...
Bom, o “caso” Pingo Doce. Fazer politica assim, aproveitando o momento dramático para o sublinhar de forma falaciosa e constituir explicação para tudo, é tão fácil. Basta dissolver as ideias nas mais básicas pulsões humanas. Uma espécie de “achocolatado”. A metade do preço, claro.
Não gosto do sabor.