“O Pudim Central”
Um artigo de Rui Rangel (em boa hora me corrigiram: era Paulo Rangel, claro), no “Público”, evocando Maria José Nogueira Pinto – cuja saudade partilho com o juiz -, provocou-me uma corrente de ar que me levou ao livro “Os Dias de Amanhã”, que reúne o essencial do que Victor Cunha Rego escreveu nas páginas do Diário de Notícias. Dou comigo a ler páginas e páginas de pequenas e deliciosas obras de arte no domínio da crónica. Além da capacidade inteligente da síntese, do estilo, do talento, as ideias – e o pior de tudo: a verificação de que quase nada mudou nos últimos vinte anos.
Os mesmos problemas. Os mesmos dramas. As mesmas negligências. As mesmas incompetências. Até o mesmo FMI e um Cavaco não muito diferente do que hoje temos.
A páginas tantas, um título deixou-me a sorrir: “O pudim central”. Este bocado: “Com o capital a centrar na moeda única a batalha final de um imenso triunfo, faltam à direita outros objectivos e um discurso de autoridade. A esquerda está destroçada, mas a direita dos interesses reduziu demasiado a direita sociológica a o seu discurso político. É por isso que se recorre tantas vezes à convergência num bloco central mais eficaz quando não é formalizado. É por isso que o pudim está em cima da mesa. É por isso que não há culpados em Portugal”.
A falta que me faz a lucidez de Victor Cunha Rego é como a falta que me faz a visão descomplexada de Maria José Nogueira Pinto. Em ambos os casos, tenho a certeza de que não gostariam de ver o Portugal que estamos. Admitindo, num remoto optimismo, que este não é o Portugal que somos.
