Lembrar e esquecer
No domingo passado espreitei o mercado de novos e usados do CCB, desta vez francamente ampliado. Gosto de andar por ali a ver o que produz quem decide criar novo, artesanal, à mão, mas também gosto de tropeçar em antiguidades, ou em memórias. Desta vez, caiu-me um calhau em cima da cabeça, um daqueles flashs que deixam qualquer um de cara à banda: uma memória de infância desaparecida! Se eu não tivesse visto, numa banca de papelada antiga e livros, uma série de folhas de Actiontransfers, jamais me lembraria de que aquela foi uma das minhas obsessões de infância: folhas de decalques com pessoas, animais, objectos, que se “colavam” numa espécie de álbuns que constituiam, ao mesmo tempo, capa e guarda-decalques. A paixão começou porque o meu pai usava letraset – letras decalcáveis em papel – em alguns dos seus trabalhos, e eu era fascinado por aquelas letras mortas que ganhavam vida quando saltavam das transparências para o papel.
Mas os Actiontransfers eram muito melhores – além de coloridos, eram bonecos, animais, objectos, que se decalcavam para cenários previamente impressos, onde ficavam a brilhar e permitiam todos os sonhos. Eu era apaixonado por aquilo, e lembro-me de passar horas a olhar para um soldado, observar o cenário, e escolher com rigor o lugar onde ía ser “imortalizado”. Domingo passado, quando os meus olhos se fixaram numa capa de Actiontransfers na banca da feira do CCB, parecia que estava a ser sugado por um aspirador de memória. Como é que me esqueci dos Actiontransfers? Como é que me lembro da revista Recreio, dos soldados da Airfix, dos carrinhos da Matchbox, dos livros dos sete, das tardes da Vovó Donalda, e apaguei o ficheiro dos Actiontransfers? Desde esse dia que ando a tentar perceber o mistério. Será trauma ou casualidade? Ou apenas a natural hierarquia das memórias? É o mais provável. Mas não me conformo, porque abri um precedente no que julgava ser uma ainda boa memória de infância. De que mais me terei esquecido?

