Como é que nos espantamos com o estado em que estamos?
Nem há quinze dias a revista Exame revelou, no seu ranking anual, que o Grupo EDP tem 3 das 5 maiores empresas portuguesas, sendo que a “EDP – Serviço Universal” (a que nos leva luz a casa) é mesmo a segunda maior, atrás da Galp.
Foi nisto que pensei ontem quando quis recuperar dinheiro perdido em estimativas excessivas e me dirigi à loja EDP do Marquês de Pombal. Como a primeira imagem demonstra, a EDP não pára e está a remodelar a sua loja-mãe. Um sinal da sua dimensão e dinâmica.
Dado que a dimensão determina a eficácia, não quis a EDP privar os seus clientes de um cómodo e eficaz serviço de atendimento. Para isso (reparem na imagem 2), abriu um espaço alternativo, em pleno Marquês, maior do que a Ginjinha do Rossio, porém mais pequeno do que a Rua da Betesga.
Sem espaço para sequer acolher os clientes, a EDP alimenta uma fila pela rua fora, que vai entrando lentamente para um balcão onde dois funcionários – repito, dois funcionários... – perguntam “A seguir? O que pretende?”.
Quando chegou a minha vez, e pensando na modernidade de todo aquele aparato – não sei porquê, lembrei-me dos velhos TLP e dos seus telefones fixos com listas de espera de três a seis meses... -, exclamei um sonoro “acho isto inacreditável!”. O zeloso e sorridente funcionário respondeu-me: “Estou totalmente de acordo consigo, também acho isto inacreditável!”. Fiquei estupefacto.
Sem mais demoras, mostrei-lhe o crédito que tinha a receber. Ele sorriu e acrescentou: “Para mais, isso nem é aqui. Tem que ir ali a uma papelaria de vão de escada, que é Agente EDP, onde lhe fazem o crédito...”.
Ainda zonzo com este pesadelo em pleno dia, que me fez perder hora e meia de um dia util, lá fui a uma papelaria junto à Duque de Loulé onde, entre totolotos e revistas, um homem me deu um monte de notas de 10 e de 20, que eu conferia enquanto atrás de mim se formava uma pequena fila de pessoas que queriam pastilhas, euromilhões, ou créditos da EDP.
Senti-me num país de terceiro mundo (onde, por sinal, nunca tive que receber créditos da conta da luz), e quando voltei à praça e olhei os modernos logótipos da EDP, e pensei na sua Fundação, na modernidade que ostenta, e no seu Presidente, dei comigo a rir sozinho. Umas horas mais tarde, em casa, leio no site da empresa: "Na EDP, a área de Investigação, Desenvolvimento e Inovação está alinhada com os seus pilares estratégicos". Bem me parecia.
Como é que nos espantamos com o estado em que estamos?

