Coisas que vale (mesmo) a pena conhecer e alinhar...
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Estou a ler “Agora e na Hora da Nossa Morte” (edição Tinta da China, segunda edição à venda dentro de dias). Eu já admirava as reportagens da Susana Moreira Marques no Público, e estranhava que não fosse mais frequente e visível o seu trabalho. Pensei o costume: já não há lugar para o jornalismo de profundidade e autor.
Mas agora chegou este livro – uma reportagem ao estilo do melhor jornalismo que se pode reinventar a partir do New Journalism de outras décadas – e estou rendido ao talento da jornalista, à imaginação e criatividade com que desenhou a maneira de nos contar histórias de morte e de vida, e à fórmula com que nos agarra desde o primeiro parágrafo.
Começa assim:
“Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda. Primeiro os olhos, depois o coração — ou os nervos ou aquilo a que os antigos chamavam alma — e finalmente, as mãos”.
Daqui para a frente, vale tudo. Vale acima de tudo o encontro entre o talento da escrita, a sabedoria do olhar, e a sensibilidade do que se vê e quer contar. Alguém já disse que Susana Moreira Marques inventou uma nova escrita. Não concordo, pelas melhores razões: Susana recuperou o jornalismo que anda perdido há anos demais e tornou-o seu. Com inteira propriedade.
Deu sentido à frase que fecha o seu livro - “Mais do que pensar que a cada morte o mundo acaba, pensar que a cada nascimento recomeça o mundo” – e deixou-nos uma certeza: o melhor jornalismo não acaba enquanto houver uma Susana Moreira Marques à solta. Que bom.
(A Susana é visita do Hotel Babilónia no próximo sábado. A quem interesse...)
Ontem, graças a este blog, aprendi a fazer pão.
O pão, juntamente com o azeite e o sal, são para mim as chaves que abrem as portas ao prazer de comer e dão sentido a uma mesa. E por essa via, a um bom bocado de vida. Quando abri o forno e vi o pão dourado, bonito, e depois o provei, saboroso e cheio, tive a certeza de algo que já desconfiava: além do filho, do livro e da árvore, um homem tem de fazer pão nem que seja uma vez na vida.
Eu até espero fazer mais vezes na vida que se segue.
E na lamechice da emoção de ver o pão a escaldar-me nas mãos, consegui gostar deste poema singelo, ingénuo, mas também por isso puro.
Se um pão é farinha, água, sal, e amor, pode bem um poema ser assim:
“É uma coisa muito antiga
o ofício do pão
primeiro misture o fermento
com água morna e açúcar
e deixa crescer ao sol
depois numa vasilha
derrame a farinha e o sal
óleo de girassol manjericão
adicionado o fermento
vá dando o ponto com calma
água morna e farinha
mas o pão tem seus mistérios
na sua feitura há que entrar
um pouco da alma do que é etéreo
então estique a massa
enrole numa trança
e deixe que descanse
que o tempo faça a sua dança
asse em forno forte
até que o perfume do pão
se espalhe pela casa e pela vida”
(O poema é da escritora brasileira Roseana Murray)
O Expresso faz hoje 40 anos e está de Parabéns.
Tenho pena que chegue a esta década – aquela em que ainda vivo, oito anos mais velho do que ele... – com a respiração cada vez mais curta. Só no último ano foram embora 10 mil compradores, o que é desproporcionalmente mais grave do que a crise em que qualquer argumentação se sustenta.
Faço parte daqueles que, todos os sábados, compram o Expresso sem aquele lamento do “é um hábito, apenas isso”. Compro porque acho que vale a pena comprar - e quando deixar de achar, não serei dos que lhe chamam “Espesso”.
Mas também faço parte daqueles que, todos os sábados, acham que o Expresso tem feito menos por si próprio do que devia para merecer o título de primeiro semanário português. E que lhe falta hoje a garra e a chispa que o fez resistir, noutros tempos, às investidas da modernidade. Vá lá saber-se porquê, ocorre-me sempre o nome de Vicente Jorge Silva...
Resultado: o Expresso merece os Parabéns pelo dia de hoje – mas usando uma palavra sabiamente dita por Octávio Ribeiro no último Expresso-da-meia-Noite, talvez deva estudar bem o significado da palavra “humildade”, para perceber melhor o que o futuro lhe reserva.
Não está sozinho – toda a imprensa portuguesa vive hoje na mesma barca de Noé... -, mas dada a sua condição, idade e História, talvez devesse comandar o barco. Este aniversário é talvez a última oportunidade para recuperar essa liderança de criatividade, ousadia e seriedade, tudo a um tempo e no mesmo registo. A ver vamos como lida com os “entas”.
... A ler uma crónica assim (no Público de ontem, sob o titulo "13 Anos"):
Génio puro. À solta. Imparável.
Para começar o ano com garra, só contagiado pela garra desta mulher:
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