"A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça".
A RTP chega ao meio século no mesmo ano em que eu “faço” 20 anos de televisão. Duas décadas sobre a primeira vez que subi a velha rampa do Lumiar... A RTP já era parte da minha vida antes disso, e continua a ser para lá das aproximações e afastamentos que o tempo se tem encarregue de testemunhar.
Nestes dias em que se recordam tempos idos, eu olho esta RTP que atravessou os tempos mais conturbados da História nas últimas décadas e o único sinal forte que reconheço é aquele que muitas vezes os números, as audiências, os momentos, acabam por maquilhar: é que a Televisão (como toda a comunicação) não existe enquanto entidade. Não é uma fábrica nem uma oficina. Não é algo que funcione independentemente de quem a faz. A RTP não é realmente a RTP, como o Diário de Noticias, por si só, não existe. Num jornal, numa estação de TV ou rádio, não se fabricam parafusos.
Bem pelo contrário: a televisão, a comunicação, é a soma de cabeças individuais que pensam, criam e produzem os conteúdos. Não é indiferente ter ali esta pessoa ou antes aquela – faz toda a diferença um nome, uma cabeça, um projecto. Por mais que o pragmatismo dos números tenha tomado conta do universo mediático, ele nunca vencerá o sorriso de um apresentador carismático, a lança em África de um projecto inovador, a ousadia de uma programação.
A RTP é a prova viva desta ideia: ameaçada ao longo dos anos por fenómenos tão diversos quanto o caos da revolução, ou o dinamismo dos canais privados, foi abaixo mas voltou sempre à tona de água - conseguiu dar a volta por cima e, como agora se diz, “chegar-se à frente”. Houve estudos? Certamente que sim. Houve método? É óbvio. Mas houve, acima de tudo, pessoas. Provavelmente, as pessoas certas, na hora e no local certos.
Os media são brutais no que ao tempo diz respeito: quem hoje serve, amanhã é esquecido. É um princípio a que temos de nos habituar. Mas ele é tão válido para o pior dos momentos como para o melhor. Só isso explica que, ao virar os 50 anos, a RTP se apresente com o dinamismo e a frescura que ninguém há uns anos poderia adivinhar-lhe.
E tudo se resume a uma palavra: pessoas. Quem quiser fazer bem comunicação, não vai poder dispensar os melhores ou reduzir tudo a números. Já era assim quando subi aquela rampa do Lumiar, em 1987. Era assim há 50 anos, mas não se sabia. Assim será no futuro, para o melhor e para o pior.
Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.
Uma boa frase
Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira
Subscrever por e-mail
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.