Quando encontramos amigos de há muitos anos, ou recordamos tempos passados, há sempre um momento em que alguém –não raras vezes… eu… - diz algo como: “se eu soubesse que a vida ía ser assim, tinha feito de modo diferente aqui ou ali”.
O princípio está certo. O fundo está errado: se eu soubesse que a vida ía ser assim, não teria feito a vida que fiz, por isso não estaria onde estou, e daí não posso sequer imaginar se a desejaria diferente ou igual. A equação desfaz-se em pó, por ela própria, sem dó nem piedade.
Resta-me viver a vida como ela existe, aqui onde cheguei, sem imaginar como aqui chegaria de outro modo, nem sequer se chegava. A verdade é que cheguei.
O resto? É o que aí vem e o melhor que dele souber fazer.
Quando ouvi falar pela primeira vez do Manuel Falcão, eu era um estagiário/colaborador de jornais, e ele era já um fotógrafo credenciado, critico de musica, e preparava-se para fundar o jornal “Blitz”. A nossa relação não começou da melhor maneira – eu tinha a mania que era mau e ele não deixava nada por dizer… - mas um dia encontrámo-nos n’O Independente e percebemos que era mais aquilo que nos aproximava do que o que nos mantinha afastados. Quis o destino – e a administração da Projornal… – que fossemos juntos, no final dos anos 80, dirigir o “Sete” e tentar recuperar-lhe vendas e audiências. Partilhávamos o gabinete e não adiámos a rendição: tornámo-nos mesmo amigos. Até hoje.
Entre muitos gostos comuns – jornais, revistas, jornalismo, tecnologia, musica, gastronomia… -, a fotografia foi seguramente uma das paixões que o Manuel sempre alimentou, e em que aprendi com a sua sensibilidade e conhecimento. Não me surpreendeu, portanto, que passados tantos anos, e andando ele em aventuras mais ligadas à gestão do que à arte, ainda assim o bichinho não tenha morrido.
Tornando curta uma longa história: o Manuel Falcão acaba de ousar – é de ousadia e coragem que se trata - criar uma editora de livros dedicados à fotografia. A Amieira – titulo que foi buscar à sua terra-natal, à origem, ao fundo dos fundos… - nasceu agora, com um primeiro livro, “Ao Correr do Tempo”, de Luiz Carvalho, que nos mostra um lado menos conhecido do fotógrafo que nos habituámos a ver mais ligado ao fotojornalismo de actualidade. O livro é cuidado na edição e grafismo, é discreto sem ceder na qualidade, é elegante e de incontornável bom gosto.
Tenho muito orgulho em ser amigo de um homem que ousou o caminho mais difícil – e estou grato por ter conhecido um Luiz Carvalho que ainda não conhecia. Portugal precisa de gente assim, que saiba o que faz e que não deixe morrer a paixão e a coragem às mãos do desânimo e da realidade. Obrigado, Manuel.
Quando verifico que amanhã o bar/discoteca Lux assinala o seu 15º aniversário, solto o inevitável “bolas, isto passa tudo a correr”, e recuo no tempo. Não ao ano da abertura, mas ao ano seguinte: 1999. Desafiado pelo Gonçalo Bullosa e pelo António Lobato Faria, aceitei juntar mais de vinte anos de crónicas, escolher as que entendia terem existência para lá do dia em que foram publicadas, e compor um livrinho que seria a primeira obra da nova editora "Oficina do Livro". Chamei-lhe “Noite em Branco”, porque a soma daqueles textos resultava de muitas noitadas de escrita solitária. E ousei sugerir que o lançamento, para variar dos sítios do costume, fosse justamente no primeiro andar do Lux. Confesso que, quando lancei a ideia, julguei-a impossível – pelos custos financeiros, por ser fora da caixa, por tudo. Mas a Oficina do Livro era, naquele arranque, um sonho onde tudo se concretizava – e o Manuel Reis nunca deixou de ser um homem aberto ao novo. O encontro foi feliz – e o meu primeiro livro, “Noites em Branco”, também o primeiro da “Oficina do Livro”, foi mesmo lançado no Lux, estreando uma possibilidade que depois se repetiu com muitos outros autores e livros. Foi uma noite intensa, emocionante, inesquecível. Publicar um livro, pelo menos um primeiro livro, é uma outra forma de ser pai.
Passaram 14 anos. Publiquei mais dois livros. Vou pensando em novas ideias – quem sabe, um dia destes volte a publicar. E quem sabe se volto ao mesmo Lux onde amanhã faço a clássica "saúde!" a 15 anos de sucesso e felicidade. Eu acredito que se pode mesmo voltar a um lugar onde fomos felizes.
Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.
Uma boa frase
Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira
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