Um dia vou trabalhar num jornal assim
Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]
Andava num disco rigido externo à procura de um texto, que obviamente não encontrei (porque nunca fui um bom arquivador, como era o meu pai), mas por outro lado encontrei - entre fotografias e textos - muita coisa que não procurava. Entre esse espólio, estava um texto que me lembrou uma conversa recente. Foi publicado na revista Visão em Maio de 1995, ou seja, há mais de 20 anos. Parece assim tão fora de moda?
Ei-lo:
"Façam o favor de olhar à volta, vasculhar jornais e revistas, da economia à moda, dos assuntos gerais à política, do espectáculo ao desporto. O que é que encontram, o que constitui dossier, especial, capa, fotoreportagem? É uma nova moda, uma mania, quase um culto dos jornalistas: a memória. O calendário determinou que esta fosse uma época de recordações — e aí está a efeméride, que durante décadas serviu para tapar buracos em momentos de vazio imaginativo, a ganhar estatuto de estrela da imprensa e da televisão. Desde há um ano que não há semana, não há quase um dia, sem um dossier, um exclusivo, uma viagem ao passado, seja o mais recente — agora estamos no centro dos «festejos» do Verão quente de 75 — ou o mais antigo, como a 2ª Guerra Mundial. Mesmo quando o assunto é actual, a imprensa envelhece-o com um regresso rápido ao passado ou uma fotografia bem antiga (veja–se a excelente capa da revista «Exame» dedicada ao desemprego).
É um fenómeno novo, na medida em que transforma o passado em actualidade e dá–lhe um enquadramento estético ajustado, com a fotografia a preto e branco, a crónica de situação, a revelação de um dado ainda desconhecido. É uma necessidade da classe, que se confronta com uma agenda demasiado desinteressante para as fasquias em que coloca a venda e audiência. É um gosto que toca a todos — os mais velhos caiem no poço da nostalgia e os mais novos conhecem o estranho mundo em que os pais e os avós viveram. Não ofende ninguém. Pode, quando tratado com cuidado, trazer revelações surpreendentes.
A moda da memória é nova, reflecte–se na generalidade dos meios de comunicação e, como todas as modas, vai cansar quem a determina e quem a consome. Até lá, é um apoio fundamental para a falta de novidade."
E foi. E agora voltou. A vida é mais ou menos isto.
(Crónica de ontem na plataforma Sapo24)
A Constituição da Republica Portuguesa não estabelece um patamar acima do qual (ou, mais rigorosamente, abaixo do qual…) a ideia de democracia ganha contornos de ridículo, absurdo, de estapafúrdio, de risível. Se o fizesse, tenho a certeza que os momentos que vivemos nestas semanas já estavam no top. Pior: o ridículo tem passado no horário nobre da TV.
Ter de ver, diariamente, debates (em que eles se levam a sério…) entre Tino de Rans e Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, Marisa Matias e Edgar Silva, Paulo Morais e Henrique Neto, Cândido Ferreira e Jorge Sequeira, e depois baralha e torna a dar para que todos se encontrem em igualdade de circunstâncias, tem qualquer coisa que anda entre a sitcom e o reality-show. São umas dezenas largas de horas de televisão sem qualquer sentido, na maioria dos casos sem conteúdo, entre pessoas que todos sabemos que não vão passar do primeiro domingo eleitoral. Numa absurda interpretação de equilíbrio informativo, os media alinharam nesta farsa, onde o critério não é jornalístico, é puramente aritmético e igualitário. Exactamente o contrário do que se pede ao jornalismo: escolha, hierarquia, relativização, análise e um sensato uso do tempo de antena.
Aquilo a que assistimos é a mais clara falta de bom senso e rigor. É colocar todos ao mesmo nível - uma falsidade -, e dar-lhes igual relevância, coisa que qualquer estagiário de jornalismo saberia que era, no mínimo, pouco criteriosa.
Aliás, ouvir os dez candidatos de olhos fechados é uma experiência fascinante, porque em segundos separamos o trigo do joio. Basta atentar na forma como falam. Usam sem qualquer pudor a expressão “quando eu for Presidente”, equiparam-se uns aos outros como se tivessem os mesmos percursos, confrontam-se militantes do mesmo partido (Henrique Neto e Maria de Belém, por exemplo) como se não fossem camaradas. Além da atitude previamente vencedora - alguém lhes ensinou, sabe-se lá porquê, que marketing politico é isso… -, resvalam frequentemente para áreas que não lhes dizem respeito, caso sejam eleitos, e que perigosamente revelam ignorância sobre os limites dos poderes presidenciais.
Assistir a este triste espectáculo remete-me para os primeiros anos da revolução, quando se levantava uma pedra da calçada e estava um partido politico lá debaixo, sempre disponível para governar. Mas há uma diferença substancial entre o ridículo de alguns desses momentos passados e o absurdo actual: é que nessa altura toda a gente se interessava por política e pelos caminhos que Portugal devia trilhar; hoje, vivemos a mais desinteressante campanha de que me lembro e corremos o risco de ter a mais alta taxa de abstenção de sempre. E isso não é apenas triste - é um falhanço do regime, num momento em que tanto precisamos de empenho e interesse. Não me espantaria se aparecesse um qualquer estudo de opinião que concluísse que esta overdose de debates contribui fortemente para a indiferença generalizada que por aí vai. Há pior, para quem quis igualdade de oportunidades e direitos iguais para todos?
(Com esta capa dupla, reproduzindo o bebé da capa do número 1 - e o mesmo “bebé”, agora com dez anos…
A direcção de António José Teixeira achou que estava esgotado o tempo deste suplemento.
Sempre entendi que um suplemento de um jornal não é o jornal em si, pode durar uma semana ou uma dúzia de anos. Atingir o décimo ano foi, para mim, uma surpresa e uma honra. Só me cabia estar grato por tanto tempo de vida. E despedir-me dos leitores da melhor maneira. Foi isto que escrevi para essa edição final, sob o título "Os olhos espantados de um bebé"…)
“No começo, eram os olhos espantados de um bebé. Os olhos maravilhados, curiosos, os olhos com perguntas que não esperam respostas, mas apenas revelações. Eram aqueles olhos ingénuos e puros que a designer norte-americana Edith Stone me pedia insistentemente num castelhano semelhante ao meu, ou seja, pouco mais que sofrível. “Pedro, una pergunta...” – e depois desta frase vinha sempre um pedido difícil, discutível, muitas vezes irresistível. Perdíamos horas a observar um pormenor, ou a diferença entre um pormenor e outro. No fim, invariavelmente, riamo-nos – porque estávamos de acordo, mesmo quando o meu orçamento limitava o nosso objectivo.
Já lhe tinha dado dezenas de fotografias para a capa do número zero do DNA. Dizia ela: “Pedro, una pergunta...”. Até que um dia não disse. Tinha os olhos espantados do bebé. Tinha na mão a chave do nosso trabalho conjunto de meses. Tinha a resposta. A resposta era... a pergunta dos olhos espantados do bebé. A resposta era o verbo – “Nascer” – e algo que ambos sabíamos o que era. Só não sabíamos bem como dizer. Usávamos uma palavra inexistente – “impactante” – e uma ideia absurda que alimento desde que me meti nesta vida: os nossos leitores só gostarão daquilo que nós gostaríamos se fossemos leitores como eles.
E foi assim.
E é assim.
No começo, como no final, os olhos espantados do bebé inspiraram milhares de páginas de jornal. Eles foram, a um tempo, o desafio da pergunta e a satisfação da resposta; a ingenuidade dos começos e a sabedoria inerente à humildade; a curiosidade infantil e a discrição do bom senso. Esses olhos vigiaram-nos e tomaram conta de nós, constituíram luz e sombra, foram críticos, entusiastas, colocaram-nos em causa e souberam agarrar-nos a causas.
... Esses olhos cresceram connosco. E hoje, no dia em que fechamos este bocado das nossas vidas, e damos por cumprida a missão que nos foi incumbida por Mário Bettencourt Resendes (então director do DN) e Edson Athayde (então administrador), é para esses olhos que volto a olhar – os mesmos, nove anos depois.
O que vejo?
Vejo um olhar mais seguro, menos espantado. Ainda assim inquieto. Vejo através desses olhos o olhar da Carmo Aragão de Barros quando, nos momentos mais desabridos do DNA, lançava a sua frase fatal – “à vontade não é à vontadinha!”. Vejo a Sónia Morais Santos a desafiar-se a si própria num texto arrebatador que me deixa um nó na garganta (desato-o com a hora tardia a que entrega, e com isso alivio uma comoção que não me dá jeito nenhum neste instante). Vejo o Luís Osório a delirar com uma ideia impossível que ele depois concretiza como se fosse com uma perna às costas. Vejo o Augusto Brázio a propor-me uma fotoreportagem feita mil vezes e, com o seu olhar misterioso, prometer uma nova abordagem – e cumprir, surpreendendo-me com o ângulo que jamais vi. Vejo a Catarina Vasques tratar de cada DNA como se fosse mais um filho seu. Vejo o Nuno, o Hugo, o LSD, o Miguel, a Maria, a Inês, o Marcelo, a Fátima (sim, é minha irmã), o COS, o MEC, o Quevedo, o Nuno, a Carla, o Jorge Nogueira, a Rita (sim, a Rititi), o Eduardo Barroso, o João Ribeiro, a Cristina, a Cláudia Clemente, o José Mário Silva, o João Gobern, a Margarida Marinho, o Pedro Mexia, o Francisco José Viegas, a Ana Marques Gastão, o João Céu e Silva, o Leonídio, vejo, vejo, vejo... Eu vejo tanta gente - e em cada um vejo aquele olhar espantado do bebé. E é esse olhar que hoje me espanta e me inquieta outra vez.
São três da manhã do dia 30 de Dezembro. Cabe-me fechar o DNA com a mesma dignidade e amor com que tive o privilégio de o conceber e “abrir”. Não quero lágrimas nem choros – porque sei bem que um suplemento de jornal não é mais do que isso mesmo: um suplemento, um complemento. Mas também não quero passar ao lado de tudo o que significou para dezenas de pessoas que o concretizaram, nem ao lado de um número recorde de prémios de todos os géneros. Fecho a porta mas ponho as medalhas do lado de fora.
E volto ao começo de tudo: os olhos espantados de um bebé. Só vale a pena viver a vida assim. Essa é a lição que fica de tudo o que nestes anos vivemos”.
Foi um dos directores da minha vida. Estar ao lado dele, naqueles meses que antecederam o lançamento da “Visão”, e nos seus primeiros e caóticos anos, foi das mais fortes vivências destes 30 anos de jornalismo. Com alegrias e tristezas, desacordos e momentos de unanimidade - com tudo a que uma profissão que vive de intensidade emocional tem direito.
Eu já sabia o que era a paixão e o entusiasmo e a criatividade nos jornais - com a dupla Portas/Esteves Cardoso -, ainda não sabia o que era a suprema sabedoria da diplomacia com a inteligência (soube-a mais tarde com o Mário Bettencourt Resendes e, depois, com o meu grande amigo Miguel Coutinho), mas faltava-me esta ligação umbilical, que hoje em dia praticamente não existe, entre quem dirige e quem faz. Porque o Cáceres Monteiro era o director que não dispensava o terreno - ou seja, tanto estava a dirigir uma equipa, como estava a partir para Bagdad em reportagem. Fazia ambas as coisas com a mesma humildade e ligeireza - mas também rigor e profissionalismo. O que lhe dava consistência na hora de decidir, e respeito de todos os que liderava.
Vou vendo no Facebook que passam dez anos sobre a sua morte. Os registos e memória são de admiração. Só podiam.
Então lembrei-me desta foto, que tem uma história irrelevante vivida com ele (e não são essas, tantas vezes, as mais relevantes?…). Foi tirada em 1993, numa das nossas idas à Suiça (a “Visão”, nessa altura, era propriedade da Edipresse suíça). Os nossos “patrões” levaram-nos à neve num momento de descontracção de fim de semana. Decidi deixar a minha marca e anunciei que ia desenhar na neve o logotipo da revista. Ninguém reagiu, a não ser o Cáceres:
- Isso vai derreter e daqui a bocado não se vê nada…
E eu respondi-lhe:
- É como o jornalismo, o que fazemos: hoje é importante, amanhã ninguém se lembra…
Felizmente, dez anos depois, o nome do Cáceres não derreteu. Todas as semanas, pela manhã de sábado, eu e o João Gobern o lembramos: foi em sua homenagem que baptizámos o nosso programa de “Hotel Babilónia”. E hoje, um pouco por todo o lado, o nome dele voltou à vida. Foi bom de assistir.
Desta vez ele não teve razão: nem tudo desaparece com o tempo, como a neve a derreter…
O fogo de artificio constitui uma boa metáfora para a mudança de ano. Um fogo fátuo sobre as nossas cabeças, um ilusório momento de luz e cor para as vidas cinzentas, uma espécie de areia para os olhos. Uns minutos do chamado “barulho das luzes”, um “me engana que eu gosto”.
Na segunda-feira, quando acordarmos, não há fogo que aqueça a verdade. Nem artificio que esconda a realidade. Nada terá realmente mudado.
Até lá, é deixar arder…
(A foto foi tirada em 2008, ano em que levei o meu filho a ver o fogo de artificio de Portimão, que me venderam ser o melhor de Portugal. Não me lembro se foi, mas lembro-me que ele gostou. Era o objectivo.)
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.