Acordei com esta canção a pairar sobre mim. Acontece frequentemente - e quando acontece, é normalmente uma canção que já tem algum tempo, que já pairou sobre mim, depois partiu, foi à sua vida, e repentinamente volta, sem lógica nem sentido. É o caso. Fiz uma busca aqui no blog - e verifiquei que, em 2014, lhe dediquei um post. “Ia repetir-me”, pensei. Mas depois repensei. Se acordei com ela a fazer-me companhia, não faz sentido evitá-la apenas porque já passou por aqui. Passa novamente. Como um livro a que se regressa, como um poema que se recorda, como uma fotografia que se revê. Rendo-me sempre a este delicioso jogo com os tempos, os verbos, e os sentimentos, que foi o isco para me apaixonar por esta canção: “E tudo isso Foi no mês que vem Foi quando eu chegar Foi na hora em que eu te vi E mais que tudo Foi no mês que vem Foi quando eu chegar Na hora em que eu te quis”.
(Crónica de hoje na plataforma/newsletter Sapo 24)
“Os canais e os meios mudam, mas o jornalismo continua a ser o mesmo: procurar a notícia, decidir da sua relevância, exercer o contraditório com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade”. As 34 palavras que fecham o editorial de ontem do diário espanhol El País, assinalando os seus 40 anos de vida, resumem o que fez deste jornal um dos mais respeitados do mundo, um dos maiores do mercado latino, e um exemplo de adaptação ao mundo digital e à informação nos tempos da tecnologia. Baluarte da democracia que a Espanha viria a adoptar nos anos 70, o El Pais nunca escondeu a sua proximidade aos socialistas do PSOE, mantendo a tradição de boa parte da imprensa europeia (que em Portugal, lamentavelmente, não existe), de não esconder, antes assumir, as suas inclinações políticas. No caso espanhol, o jornal está bem acompanhado pelo concorrente El Mundo, próximo do PP, outro excelente exemplo de jornalismo, porventura mais ousado e moderno, mas não menos sério na abordagem da informação. Ambos os diários enfrentam com ousadia o desafio das novas tecnologias, numa interacção cada vez mais dinâmica entre as edições impressas e as plataformas digitais - há reportagens do El Pais que ganham uma vida própria, complementar, enriquecida, nos videos que os leitores podem depois ver na Web -, enquanto perseguem um estilo de jornalismo que não exclui a informação dita mais popular, nem foge das matérias mais polémicas. Num editorial recente no El Mundo, a respeito de uma entrevista que o jornal decidiu publicar com um preso, condenado a 40 anos de prisão pelo assassinato dos seus dois filhos em 2011, o director David Jimenez escrevia: “O jornalismo não é uma viagem à Disneylândia, porque a vida também não é; ignorar o mal não o faz desaparecer. Contá-lo e tratar de o desvendar perante a opinião publica é uma causa não apenas legitima, mas necessária”. É esta abertura a todas as frentes da notícia que contribuem para que possamos olhar para El Pais e El Mundo como materiais que no futuro farão História. E é essa realidade que nos falta em Portugal. Há amigos que estranham o facto de ser comprador habitual do “Público” e do “Correio da Manhã” (CM), e eu explico sempre a mesma coisa: se ler apenas um deles, fico com uma imagem distorcida da realidade - no CM, Portugal vive em estado de sitio, entre violações, catanadas, mortos, roubos, corrupção e Sócrates; pelo contrário, no “Público” praticamente não há criminalidade, a televisão não tem lixo nem reality-shows, há descobertas cientificas fascinantes e as pessoas que realmente marcam a nossa vida têm o obituário que merecem (exemplo recente: a morte do fotógrafo Pedro Cláudio ocupou duas páginas no “Público”, e não mais de 20 linhas no “Correio da Manhã”. Era o “Público” que estava certo, claro). Ou seja: no cruzamento da leitura dos dois jornais acabo por ficar diariamente com uma ideia do mundo em que vivo. Mas não é natural que tenha de ler dois jornais distintos para chegar a uma aproximação da realidade. E talvez esta obtusa circunstância explique o sucesso do “CM” e o declínio inexorável do “Público”: o primeiro por força do seu jornalismo popular, o segundo pelo desinvestimento claro na edição em papel e consequente fragilidade da plataforma online. Mas também pelo preconceito que o levou a ignorar meses a fio o caso Barbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho - ou, esta semana mesmo, a polémica biografia onde se acusa Emídio Rangel de ser “culpado” pelos presumíveis vícios da ex-mulher Margarida Marante (sem que o próprio se possa defender, sem factos, sem provas…). O exemplo do El Pais e do El Mundo, aqui mesmo ao lado, deveriam inspirar e convocar os editores da nossa imprensa de referência. Mas não me parece que tal suceda. Este aniversário redondo do diário que nasceu para “ajudar” a democracia espanhola a caminhar, depois de gatinhar, prova que os 40 são mesmo os novos 30. Mas não para todos…
O diário espanhol El Pais comemora hoje o seu 40º aniversário, um número bonito que também corresponde ao gatinhar da democracia aqui na vizinhança. Sobre o aniversário e o que o rodeia, escrevo amanhã na plataforma Sapo24. Para aqui, para a minha sala de estar, guardei uma recordação muito cá de casa. Quando o El Pais nasceu eu tinha 11 anos, mas já era tão apaixonado por jornais e revistas como hoje. Fazia-os em casa, à mão, recorrendo à máquina de escrever dos meus pais, para a família ler. Lembro-me, por isso, nitidamente, da adesão do meu pai ao novo El Pais. Comprava-o de vez em quando, e lia-o com tanta atenção como me falava, com admiração, do seu layout. Perfeccionista, fascinava-o a qualidade técnica do jornal: a impressão, a dobra das páginas, o rigor das margens, a forma como estava sempre bem aparado, a qualidade do papel, a selecção criteriosa das fotografias, o grafismo sóbrio e muito depurado. Não me recordo de ler o jornal ou lhe prestar atenção - mas ainda hoje associo o El Pais ao meu pai, como se o jornal fosse uma projecção do seu modo de estar na vida: discreto, atento, rigoroso, sempre atrás do acabamento mais perfeito. Várias vezes me mostrou páginas do jornal que sustentavam as suas ideias sobre edição: “repara como eles usam as fontes das letras na hierarquia das notícias”; “olha como, na mesma página, distinguem factos de opiniões”… O El Pais faz hoje 40 anos. Cresci, tornei-me jornalista, o meu pai partiu cedo demais. Mas nunca deixei de acompanhar o jornal - especialmente quando, aqui e ali, se afastou da suas premissas iniciais. Felizmente, poucas vezes. O percurso no jornalismo poucas vezes me aproximou do jornalismo diário, mas a referência e o adn ficaram lá. E nunca andei longe desse olhar atento e crítico que o meu pai me ensinou. Hoje vi na banca o jornal cuja capa (falsa) é a reprodução da primeira página do primeiro numero, percebi que era a edição de aniversário, comprei o El Pais - e voltei por instantes a esse tempo. Quando sonhava ser um dia jornalista, e a vida era toda ela segura e simples. Não tem sido - mas isso seria todo um outro post. Para agora conta a memória, a homenagem, e a lembrança. O resto...
Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.
Uma boa frase
Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira
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