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Pedro Rolo Duarte

29
Jul11

Da importância de escolher as palavras certas

A editora onde publiquei os meus três livros tem vindo a fazer limpezas nos armazéns. O espaço custa dinheiro, o stock é dinheiro, e não há dinheiro a perder, já que o tempo, esse, foi há muito perdido.

Há um ano, ofereci aqui no blog umas dezenas de exemplares do “Fumo” que sobraram justamente de uma primeira vaga de extinção de stocks que a editora não consegue escoar, ou que os livreiros não querem ver pela frente – conforme o ponto de vista…

Agora, veio uma nova vaga para o “Sozinho em Casa”, que é o livro “do meio”. Ficará a faltar o primeiro, “Noites em Branco”, que desconfio já nem existir…

Sempre achei que as palavras que se usam são exemplares sobre a forma como se pensa aquilo sobre o que se fala. Por exemplo, nunca gostei dos profissionais que, nos jornais, se referiam às fotografias chamando-lhes “bonecos” ou “chapas”, como sempre me encanitou os leitores que chamam noticias a tudo, seja uma entrevista ou uma crónica. Não é igual ouvir alguém dizer “li um poema” ou dizer “li uns versos”. Um poema é um poema. Uma fotografia é uma fotografia. E uma reportagem não é uma entrevista. Independentemente de me irritar, o facto das pesssoas usarem estas designações, e não outras, diz muito sobre elas, sobre a relação que têm com o tema a que se referem, e diz mais ainda sobre o entendimento social e cultural do que pode estar em causa.

Tudo isto a propósito da editora que me mandou mais um mail sobre a extinção do stock final do “Sozinho em Casa”.

Titulo do mail: ABATE DE LIVROS.

Não sei porquê – ou se calhar sei – lembrei-me de carne, de talhos, de matadouros. Há palavras lixadas.

5 comentários

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    angela 31.07.2011

    Uma editora é uma indústria como outra qualquer: a sua razão de existir é o lucro. A relação que se estabelece entre o editor (empresário) e o autor é meramente comercial, excepto quando resulta num prémio Nobel ou qualquer coisa parecida. E, aqui sim, pode começar uma bela relação de amizade para com o autor e para com a palavra escrita, a obra, do autor. Enquanto tal não acontece, a relação afectiva fica apenas entre o autor e a sua obra; é assim uma espécie de relação paternal. Como se compreende, esta relação não tem nada a ver com o empresário (editor).
    Posto isto, causa-me estranheza a perplexidade do Pedro Rolo Duarte e dos demais intervenientes: num tempo em todos escrevemos mas nem sempre sabemos escrever; temos tanto para dizer mesmo que todos digam o mesmo; pensamos o que todos pensam (vulgaridades) convencidos que somos donos da originalidade, etc. etc., eu acredito sim, que os industriais da edição tenham dificuldade em estabelecer relações afectivas com as palavras e ultrapassar a mera relação comercial.
    Este é também o entendimento social e cultural do que está em causa e não entendo a dificuldade deste entendimento.
    "Há palavras lixadas"? Há!... e os jornalistas melhor que ninguém sabem que as há - palavras escritas e palavras ditas. Não fosse assim o Pedro Rolo Duarte não teria tornado público este acontecimento. O poder da palavra.
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    Anónimo 31.07.2011

    Bom,
    Como se tratou de uma resposta ao meu comentário, entendi esclarecer.
    Percebi o que pretende dizer e sei que se tratam de relações comerciais, todavia, parece-me que não devemos resumir a assunto apenas a esse facto, pois, em qualquer situação o ideal seria haver cuidado com as palavras e com as expressões, assegurando, no mínimo a inexistência de erros ortográficos e erros na contextualização.
    Esse cuidado deve existir em qualquer empresa, seja ela de que natureza fôr, e, mesmo sendo verdade que todos escrevemos mas não sabemos escrever, seria exigível que tanto nos orgãos de comunicação social, como nos meios culturais (onde incluo as editoras) não existissem "lapsos" desta natureza.
    A mim, desagrada-me ver as "preciosidades" que se vêem por este país, em restaurantes, cafés, empreiteiros de obras, etc, que escrevem com muitos erros!
    Não sabem escrever as palavras correctamente? Pois. Se ninguém lhes disser que estão a escrevê-las mal, evidentemente continuarão a fazê-lo.
    No meu trabalho, que não tem nada de cultural, mas que tem de actividade comercial, sou muito cuidadosa com os textos que escrevo, as cartas que remeto e os emails que emito... Talvez, por princípio... talvez, por hábito... talvez, por que não goste de fazer mal! Ou deveria pensar isso que sugere: É uma actividade comercial, eu não sou escritora, que importa o que escrevo??
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    angela 01.08.2011

    "Titulo do mail: ABATE DE LIVROS" diz o PRD e pareceu-me que o desagrado surgiu com a expressão "abate de livros". Ora esta espressão é usada tecnicamente em alguns contextos nomeadamente nas bibliotecas: as obras vão para "abate" por variadas razões, não importa referi-las neste espaço.
    Como vê, também nas bibliotecas (mas há mais contextos) o termo usado é "ABATE" por muito afecto que nos ligue aos livros. A terminologia usada é esta e a pessoa afecta à função usa-a correctamente. Nem podia ser de outra maneira.

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    Anónimo 01.08.2011

    Assunto esclarecido e arrumado.
    Espero, desejo, que na saúde não usem essa terminologia... porque, mesmo quando nos cuidados paliativos, sabendo qual o destino, não nos mandem para abate ;)
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